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Brava gente

São 46 milhões, ou 22% das almas nacionais, que não pretendem se vacinar. É assustador

Somam-se aos milhões os brasileiros que não se vacinarão contra a Covid-19. Segundo o Datafolha, são 46 milhões, ou 22% das almas nacionais, que não pretendem se vacinar. O número é assustador, sem qualquer dúvida. Mas talvez mais aterrorizante ainda, seja a constatação de como esse contingente se formou. Como essas pessoas chegaram à conclusão de que é melhor ficar exposto ao risco de se contaminar com um dos vírus mais violentos e letais que já passaram pelo planeta do que contra ele se imunizar. A primeira resposta é o comportamento do governo e do presidente Bolsonaro, sobretudo. Mas é mais, muito mais do que isso.

Bolsonaro não vai se vacinar e não recomenda vacina alguma. Ao contrário, sugere que elas podem fazer mal. O ministro general Pazuello, todos sabem, adorou o brilho do cargo, mas deslustrou sua farda ao ficar paralisado diante do caos. Claro que essas sinalizações afetam muitas pessoas, mas são as mais débeis que trocam a segurança pelo risco, apenas porque o líder assim orientou. Essas pessoas normalmente não leem, leem pouco ou se deixam mal informar. Buscam esclarecimentos em fontes erradas e acreditam em impressões alheias, desprovidas de embasamento.

O mar de pessoas presente na Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo) ouvindo Bolsonaro na terça-feira, fora os puxa-sacos de sempre, era formado por esse tipo de gente. Que desdenha o vírus e debocha dos que tentam se proteger (os “maricas”, nos termos do presidente), que grita “vivas” toda vez que ouve uma barbaridade pulando da boca de sua excelência, que não usa máscaras e nem respeita o distanciamento social.

Os negacionistas brasileiros foram contaminados pela ignorância porque se recusaram a entender, a aprender. Não quiseram saber. Estavam e continuam disponíveis toneladas de informações científicas e técnicas, que provam que as regras de prevenção evitam o contágio e que a vacinação garante a imunidade. A maioria simplesmente as ignorou, alguns preferiram buscar argumentos fraudulentos, mentirosos, incorretos para justificar sua alienação. Os primeiros são ignorantes genuínos, os demais são ignorantes ideológicos. Estes são os piores.

A turma genuína é composta por aspirantes a Eremildo, estão por todos os lugares e são facilmente identificáveis, são idiotas. Os ideológicos também estão espalhados por aí, mas são mais sofisticados. Usam as redes sociais, onde “compram” teorias conspiratórias, são traficantes de fake news, espalham ataques sempre infundados e injustificáveis contra máscaras, distanciamento e, agora, vacinas.

No reino da lorota em que se transformou a pátria armada, é fácil encontrar ouvidos que escutam e aceitam tudo. Por isso, muitos brasileiros dizem que não vão tomar a vacina por medo dos efeitos colaterais que ela pode produzir. Trata-se de uma barbaridade, concordam? Primeiro, porque nenhuma das vacinas testadas causa efeitos adversos. Segundo, porque a alternativa a um eventual desconforto é a contaminação com a Covid-19, talvez a morte. Seria como um paciente com câncer se recusar a fazer quimioterapia porque não quer ficar enjoado.

Enquanto isso

1 — As duas fileiras de autoridades presentes na cerimônia de divulgação do plano (?) de imunização no Planalto mostram em que terreno estamos pisando. O presidente e seus ministros generais não usavam máscara. Quase todos os demais estavam protegidos, inclusive os governadores convidados para o ato. Não era descuido. O que eles indicavam com o gesto era um método, uma orientação, um caminho. Se fossem palavras, seriam alinhadas assim: “Façam como nós, não usem máscara”.

2 — O ministro Pazuello disse, e a plateia aplaudiu, que a Anvisa vai usar todo o mês de janeiro para analisar as vacinas e que, “de meados de fevereiro em diante”, os brasileiros começarão a ser vacinados. Na terça, 964 brasileiros morreram pela doença. Até 15 de fevereiro serão mais 58.804 mortos. E o general não tem pressa.

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