Brincar de home office não vai alterar ordem desigual em que vivemos – LUIS FELIPE PONDÉ – FOLHA

Segundo o historiador Walter Scheidel, pandemia só alteraria desigualdade social se matasse milhões

Uma expressão que me causa especial desgosto é “o novo normal”. Não porque não ocorram mudanças decorrentes de epidemias, maiores ou menores, mas porque no mundo de hoje, no qual o marketing é a ciência fundamental, tudo fica ridículo quando a intenção primeira é a venda de uma visão de mundo açucarada para deixar as pessoas ainda mais infantilizadas do que já estão.

Hoje vou indicar um dos antídotos que temos à mão: um livro. O autor, o historiador Walter Scheidel tem uma hipótese muito consistente, chamada de “os quatro cavaleiros da igualdade social”, contra o montante de bobagens que anda circulando por aí, confundindo, como de costume, pensamento público com marketing de ideias.

Ele foi recentemente entrevistado nesta Folha, por ocasião do lançamento, no Brasil, do seu “The Great Leveler”, lançado pela Princeton University Press em 2018 e que aqui ganhou o título de “Violência e a História da Desigualdade – Da Idade da Pedra ao Século 21”.

Ilustração para a coluna de Luiz Felipe Pondé da edição de 22.jun.2020
Ilustração para a coluna de Luiz Felipe Pondé da edição de 22.jun.2020 – Ricardo Cammarota

Segundo o autor, a normalidade social por longos períodos sempre tende a acumular riqueza nas mãos dos mais ricos e a aumentar a desigualdade social. Só grandes devastações em larguíssima escala alteram a desigualdade —e, mesmo assim, após a normalização que se segue, a desigualdade retoma seu curso.

Para quem não lembra o que é desigualdade social ou pobreza em larga escala (sei da diferença conceitual entre as duas, mas não vou dar atenção a isso por aqui porque não é necessário), eu lembro: desigualdade social é o que faz com que políticas sanitárias na América Latina conhecidas como “lockdown” sejam, basicamente, cercar bairros periféricos ou favelas com alto índice de transmissão da Covid-19 e impedir que seus moradores circulem pela cidade, fazendo com que, assim, não contaminem o resto da população, inclusive parte da inteligência pública alienada.

Sei que belas almas entendem esse processo de maneira diferente, pois sempre confundem o Brasil com a Dinamarca, mas nada temos a fazer em relação a isso. Aliás, no mínimo dois países na América Latina colocaram esse tipo de política em prática, cercando seus bairros pobres.

Voltemos aos quatro cavaleiros da igualdade social. Segundo Scheidel, a desigualdade caminha passo a passo com a normalidade social. Os fatores dessa desigualdade surgiram já desde o Neolítico e se acentuaram com o tempo.

A sorte biológica (que se materializa em mais saúde e em boa hereditariedade tanto em relação a sua origem quanto em relação a sua descendência), as leis que normatizam a transmissão de riquezas materiais e imateriais (fator essencial para a tal segurança jurídica e comercial), as vantagens geográficas, a capacidade técnica de colher, cuidar e assegurar a riqueza acumulada, os governos e as religiões (instituições que trazem exatamente essa segurança), tudo isso são elementos da normalidade social e histórica.

A interrupção desse curso normal das coisas, contudo, só ocorre quando quatro fenômenos acontecem.

O primeiro são as guerras profundas, capilarizadas, amplas, industrializadas, duradouras —caso das duas guerras mundiais, das guerras napoleônicas e da Guerra Civil Americana, por exemplo. São conflitos com capacidade de matar pessoas em um nível gigantesco e de destruir a estrutura social, política e econômica existente.

O segundo fator são as revoluções, como a soviética e a chinesa, que mataram pessoas aos milhões e geraram uma guerra civil de capacidade devastadora.

O terceiro, a falência absoluta do Estado em uma determinada sociedade, levando ao caos social, político e econômico e debilitando a sociedade ao ponto de quase extinção.

O quarto? Pandemias. Porém, não esta pela qual estamos passando, que, até onde vemos, não terá nenhum efeito devastador se comparada a outras tantas. Trocando em miúdos, uma epidemia só consegue mudar alguma coisa de fato se matar milhões e milhões de pessoas, destruindo a sociedade de forma a ela não conseguir se retomada do ponto em que se encontrava.

Sim, apenas a destruição em massa de populações inteiras, instituições, redes de circulação de produtos e infraestrutura produtiva pode alterar a desigualdade social —e, mesmo assim, após a normalidade retomada a duras penas, a desigualdade tende a voltar.

Portanto, você e seu narcisismo brincando de home office não vão alterar nada na ordem desigual em que vivemos. Aliás, pelo contrário: deve piorar.

Luiz Felipe Pondé

Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.

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