Bryan Cranston brilha de novo como homem corrompido na série ‘Your Honor’ – ISABELA BOSCOV, REVISTA VEJA

Repleta de suspense e de grandes atuações, a produção põe o ator na pele de um homem que, em desespero, se torna um sujeito mau para salvar a família

Por Isabela Boscov Atualizado em 12 mar 2021, 17h02 – Publicado em 12 mar 2021, 06h00

TENSÃO PATERNA - Cranston e Doohan: apagando a linha entre certo e errado -
TENSÃO PATERNA - Cranston e Doohan: apagando a linha entre certo e errado – Skip Bolen/Showtime/.

Pai de família dedicado e profissional responsável, um homem se vê diante de uma reviravolta terrível na vida. Responde a ela abdicando da consciência e cometendo os atos mais abjetos para proteger os seus — e também para, a partir de um certo momento que nem ele sabe discernir qual é, satisfazer o próprio ego com a sua competência para a manipulação, o furtivo, o imoral. A sinopse serve tanto para Breaking Bad, uma das séries que definiram o padrão-­ouro da dramaturgia televisiva americana, quanto para Your Honor (Estados Unidos, 2020), disponível na recém-lançada plataforma Para­mount+ e estrelada pelo mesmo Bryan Cranston que assombrou o público como Walter White, o professor de química que se transmutava em traficante de metanfetamina.

Nessa nova encarnação, Cranston é Michael Desiato, juiz de Nova Orleans respeitado pela meticulosidade processual e pela compaixão pelos réus. O juiz está às voltas ainda com o luto pela mulher, uma fotógrafa assassinada por estar no lugar errado, e pela fragilidade do filho adolescente, Adam (Hunter Doohan). No dia do aniversário de um ano da morte, Adam vai para o lado perigoso da cidade fazer uma homenagem à mãe. Ameaçado pela gangue do bairro, quase sem gasolina e sufocando com uma crise de asma, o garoto sem querer apanha em cheio uma moto, matando um rapaz da mesma idade no acidente — do qual foge, em pânico, depois de uma tentativa malsucedida de chamar o resgate. Seria ruim o bastante, mas o rapaz não é uma vítima qualquer. É filho de Jimmy Baxter (Michael Stuhlbarg), o nome mais temido do crime organizado de Nova Orleans, como o juiz descobre ao levar o filho para se apresentar à polícia e, na hora H, dar meia-volta: não há dúvida de que Baxter vai dar um jeito de matar o atropelador, e entregar Adam equivaleria a assinar sua sentença.

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Encobrir o crime é, portanto, a única saída. Mas cada vestígio que Desiato tenta apagar — ora por conta própria, ora convocando os favores de amigos com contatos escusos ou ainda envolvendo pessoas que não sabem estar sendo usadas — cria novas pegadas, numa progressão exponencial. Repleta de atuações formidáveis e perita na maneira como produz e sustenta o suspense, a série criada pelo inglês Peter Moffat, de Criminal Justice, expõe a precariedade da Nova Orleans que nunca se recuperou do furacão Katrina e a promiscuidade da outra Nova Orleans, aquela das relações de poder escandalosas. Your Honor passa longe da agudeza da discussão moral representada pelo secretamente ressentido Walter White de Breaking Bad. Mas, além de ser televisão de excelente qualidade, propõe Desiato como um enigma que, em princípio, qualquer um pode conter. Talvez ele se repugne com os atos que a urgência de proteger Adam o leva a cometer — ou, talvez, tenha sempre se escondido de si mesmo e agora tem um pretexto para se libertar.

Publicado em VEJA de 17 de março de 2021, edição nº 2729

Bryan Cranston brilha de novo como homem corrompido na série ‘Your Honor’ – ISABELA BOSCOV, REVISTA VEJA
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