Cabe ao Estado estimular o sexo seguro, sem meter Deus no meio – RICARDO NOBLAT, VEJA.COM

A “bobajarada” que Damares defende e Bolsonaro subscreve

 Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por mais ignorante que pareça, o presidente Jair Bolsonaro sabe que fazer sexo é bom ou pode ser. E que os jovens passaram a descobrir o sexo cada vez mais cedo. Dará em nada, por isso, a não ser em dinheiro jogado fora, a campanha da ministra Damares Alves a favor da abstinência sexual. Como se sexo seguro só pudesse existir a partir da maioridade e sob a benção de Deus.

Como diria Sérgio Moro, ainda ministro da Justiça e da Segurança Pública, é uma “bobajarada” o que Damares defende e Bolsonaro, por oportunismo político, subscreve. Sexo seguro tem a ver com educação e com a consciência de cada praticante. Quanto mais os jovens forem orientados a respeito, quanto mais a questão seja tratada com naturalidade, melhores serão os resultados.

Sexo e pecado só começaram a andar juntos quando a Igreja Católica (nada a ver com Jesus Cristo, seu fundador) assim o quis. A acreditar no Novo Testamento, foi a Madalena, uma mulher tida como pecadora, a quem Jesus se apresentou primeiro, mal ressuscitara, ou antes de ir para o céu. Há relatos de que eles tiveram um caso e até filhos. Se tiveram, e daí?

O Brasil é um Estado leigo. Quer dizer: não professa nenhuma religião. Admite todas. Por leigo, seus Poderes e instituições não podem tentar impor nenhum ponto de vista ou política religiosa. No preâmbulo da Constituição em vigor está dito que ela foi feita “sob a proteção de Deus”. Mas o preâmbulo não cria direitos e deveres, não tendo força normativa, segundo a Justiça já decidiu.

Cabe ao Estado prover as necessidades básicas dos cidadãos como manda a Constituição. Reduzir a gravidez entre os adolescentes e as doenças sexuais, instrui-los corretamente sobre métodos anticoncepcionais, taokey. Mas em nome da saúde pública, não de Deus. Muito menos movido pelo propósito de fidelizar o voto religioso de olho nas próximas eleições.

A Bolsonaro, muito menos a Damares, os brasileiros concederam por meio do voto o mandato para pôr sua suposta fé como condutora de políticas públicas. Fosse assim, Bolsonaro estaria em dívida por ter prometido que combateria sem tréguas a corrupção e desistido mais tarde, sabe-se lá por quê. Ou melhor: estamos cansados de saber, não é mesmo?

Cabe ao Estado estimular o sexo seguro, sem meter Deus no meio – RICARDO NOBLAT, VEJA.COM
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