Carta aberta a Abel Ferreira, com admiração – JUCA KFOURI, FOLHA

Carta aberta a Abel Ferreira, com admiração
Suas críticas ao calendário são corretas, embora inúteis diante da estrutura do futebol brasileiro

Caro Abel Ferreira, não nos conhecemos pessoalmente, mas você já conta com a minha admiração.

Suas críticas ao calendário nacional são corretas e feitas há décadas por quem tem olhos para ver, embora inúteis diante de como está estruturado o futebol por aqui.

Há até quem diga que é fruto da colonização portuguesa, da tradição cartorial lusitana, de termos não apenas as capitanias hereditárias, mas também suas herdeiras, as federações estaduais.

É a existência delas que impede um calendário razoável, porque seus campeonatos, há décadas já sem nenhuma serventia competitiva, ocupam quase três meses e obrigam, em São Paulo, campeão e vice disputarem 16 jogos.

Ganhá-los significa pouco, perdê-los dá dor de cabeça.

E por que ainda existem?, você deve se perguntar. Porque são os presidentes das federações que elegem o presidente da CBF, normalmente acompanhados dos presidentes dos clubes, do seu, inclusive.

Que já deve ter pedido para você maneirar nas críticas porque se não é bem capaz de as arbitragens começarem a prejudicar o Palmeiras com VAR e tudo, essa ferramenta que a CBF conseguiu desmoralizar rapidamente.

Por aqui é assim, Abel. Logo mais você não poderá contar com Weverton, Gabriel Menino, Gustavo Gómez, nas datas Fifa, que não param os nossos torneios. Quanto mais sucesso você conseguir neles, mais será prejudicado, seja pela convocação de jogadores, seja pelo excesso de jogos.

Saiba que o mais típico dos anos do calendário futebolístico mundial, a cada quatro anos, as Copas do Mundo, é chamado de atípico em terras brasileiras. E depois fazemos piadas com portugueses, não é mesmo?

Se você quiser saber como apesar disso tudo o Brasil ganhou cinco Copas, a explicação é simples: por cerca de cinco décadas frutificaram neste solo, em que em se plantando tudo dá, verdadeiros gênios com a bola nos pés.

Estudioso como você é não será preciso explicar quem foram nos gramados pelo mundo afora Pelé, Mané Garrincha, Didi, Nilton Santos, Djalma Santos, Carlos Alberto Torres, Tostão, Gerson, Rivellino, Romário, Ronaldo Fenômeno, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, gênios capazes de começarem por vencer os cartolas brasileiros.

Pergunte aos cartolas, não, não pergunte, do que vivem. Raros são os que poderão dizer que ou recebem salários dos clubes, o que é saudável, ou que são ricos o suficiente para poderem se dedicar às suas paixões. Em regra, enriquecem à custa dos clubes, federações e confederação, razão pela qual é melhor não perguntar porque você vai se dar mal.

Imagino, caríssimo, que sua passagem será breve pelo Patropi, porque logo perceberá que o atropelo vivido não é culpa da pandemia, mas de doença genética do reacionário e corrupto modo de fazer futebol no país.

Seja como for, sua coragem em botar o dedo na ferida, em não temer que algum imbecil diga que você é estrangeiro e deveria se abster de fazer críticas, desperta admiração em todos os que há anos batem inutilmente na mesma tecla.

Enfim, bem-vindo ao clube, some-se a tantos desde que boas cabeças como as de João Saldanha, Telê Santana e Tostão, para citar apenas três grandes, deixaram os reis nus, ou melhor, despiram os cartolas que, no entanto, não têm vergonha em continuar a expor bons profissionais enquanto se locupletam ao explorar a galinha dos ovos de ouro.

Abraço, Abel.

Juca Kfouri
Jornalista, autor de “Confesso que Perdi”. É formado em ciências sociais pela USP.

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