Carta dos economistas reforça solidão de Guedes – VERA MAGALHÃES, GLOBO

Paulo Guedes

Muita gente se pergunta por que Paulo Guedes ainda permanece no governo. O ministro da Economia costuma justificar sua insistência com base em projeções otimistas e descoladas da realidade de crescimento e bonança.

Mas a verdadeira razão que parece fazê-lo ficar, ignorando as sucessivas vezes em que foi desautorizado por Jair Bolsonaro e as estimativas que não se concretizaram, é a necessidade de provar para os pares que estava certo o tempo todo e nunca foi devidamente reconhecido.

Guedes se sente como um Forrest Gump às avessas: apesar de sua formação acadêmica sólida e seu sucesso em empreendimentos da iniciativa privada, não fez parte de nenhuma das equipes que se propuseram a implementar programas econômicos ambiciosos.

Não por acaso, ele tem mágoas profundas de colegas e costuma demolir todos os planos que o antecederam, inclusive (talvez principalmente) o Real.

A carta divulgada neste fim de semana por centenas de economistas de diferentes vieses e provenientes de diferentes escolas do pensamento econômico acentua este que sempre foi o maior fantasma de Guedes: a solidão entre os pares.

Ao finalmente ir para o governo, o “PG” tinha certeza de que consagraria sua visão de mundo, de “mais Brasil e menos Brasília”, de tirar um fardo, o Estado, das costas do trabalhador e do empreendedor. Sempre foi difícil saber em que se fundava essa certeza, sendo o presidente Jair Messias Bolsonaro. Seu pensamento (sic) estava dado em décadas de atuação parlamentar. 

Mesmo na campanha, era visível a inadequação de frases decoradas, segundo as quais iria dar carta branca ao seu “posto Ipiranga”, ao personagem.

Mesmo depois da desmoralização em série de Santos Cruz, Bebbiano, Sérgio Moro e Luiz Mandetta, PG seguiu acreditando. E repetindo a seus interlocutores a história de como foi ignorado pela academia e pelos economistas ao longo de sua vida.

Permaneceu mesmo diante da saída de muitos dos principais integrantes do time que montou, levados pela certeza de que o liberalismo vendido na campanha era fajuto e que não seria possível entregar as reformas prometidas. Isso quando não foram simplesmente vítimas da intervenção de Bolsonaro, como Roberto Castello Branco, ex-Petrobras.

Há quem atribua a Guedes os mesmos valores de Bolsonaro, o que ditaria sua permanência. Veem os mesmos traços autoritários do presidente em seu ministro, o que se mostraria na defesa da ditadura de Pinochet no Chile e no ato falho quanto ao AI-5, em 2019.

Nas vezes em que falei com Guedes ele nunca me passou a impressão de ser um ministro da mesma cepa negacionista, ideológica e antidemocrática de outros como Ricardo Salles, Ernesto Araújo, Damares Alves e alguns que já caíram fora. Pessoas cujo currículo pífio só permitiria que fossem ministros sob Bolsonaro.

Guedes, a despeito de seu ressentimento com o meio econômico e sua busca por reconhecimento a qualquer preço, não é um negacionista da ciência e sabe, por exemplo, que a única saída para a economia é a vacinação. 

O que mantém o ministro atado ao barco que afunda é essa certeza de que ele pegou a cartada da sua vida e jogou, e talvez não venha a ter outra.

O que as duras constatações de falência múltipla da economia expressadas na carta dos economistas faz é acentuar o descolamento de Guedes em relação à realidade, e mostrar que, se insistir em permanecer no barco, ele afundará junto com Bolsonaro.

Tendo permanecido até aqui já será impossível para ele dissociar sua biografia da do capitão. Resta a Guedes apostar que, depois da vacina, haverá espaço para alguma recuperação da atividade econômica que coloque o presidente no segundo turno e que, aí, a irracionalidade do nós contra eles reeleja o pior presidente da História do Brasil.

Acontece que, para chegar até lá, o ministro terá de fechar os olhos para milhares de mortes diárias por muito tempo, calar diante da permanência do negacionismo científico como política de Estado e condescender com tentativas cada vez mais explícitas de calar o dissenso por meio de táticas autoritárias de censura e perseguição. É um pacote bastante pesado para topar só para ter a vã ilusão de um dia provar aos outros (que a carta mostra que são muitos) que estava certo.

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