Colapso do sistema de saúde torna covid-19 mais mortal no Brasil, alerta Fiocruz – ESTADÃO

Cientistas pedem lockdown de 14 dias para conter avanço do vírus e evitar colapso dos hospitais

Roberta Jansen, Rio

O colapso do sistema de saúde em praticamente todo o Brasil faz a pandemia de covid-19 se alastrar mais rapidamente e se tornar ainda mais mortal no País, aponta boletim extraordinário do Observatório Covid-19 da Fiocruz divulgado nesta terça, 23. Diante do cenário de “crise humanitária”, o novo trabalho divulgado pela instituição pede que os Estados adotem imediatamente medidas de lockdown por pelo menos 14 dias. Segundo a instituição, essa seria a forma de reduzir o ritmo de transmissão da doença e aliviar a pressão nos hospitais.

De acordo com o boletim, ocorreram, em média, 73 mil casos diários de covid-19 e cerca de 2 mil óbitos por dia na última semana epidemiológica analisada (de 14 a 20 de março). Além disso, o número de casos cresce a uma taxa de 0,3% ao dia, e o número de óbitos, em 3,2% ao dia – proporção maior do que o registrado nas semanas anteriores. Também foi observado aumento da mortalidade no País. Passou de cerca de 2% no fim do ano passado para 3,1% em março de 2021.

UTI
UTI do Hospital Municipal do M’Boi Mirim durante a pandemia Foto: Werther Santana/Estadão

“A continuidade dos cenários em que temos o crescimento de todos os indicadores para covid-19, como transmissão, casos, óbitos e taxas de ocupação de leitos de UTI resulta em colapso que afeta todo o sistema de saúde no País e no aumento das mortes por desassistência”, afirmaram os pesquisadores no relatório. “Trata-se de um cenário que não é só de uma crise sanitária, mas também humanitária, se considerarmos todos os seus aspectos.”

A Fiocruz recomenda a restrição imediata das atividades consideradas não essenciais por cerca de 14 dias para obter uma redução de cerca de 40% das transmissões da doença. Essas medidas devem ser adotadas por todos os Estados onde o sistema de saúde se encontra em estado crítico. São todos à exceção de Roraima e Amazonas.

“Mesmo que vários municípios e Estados já venham adotando essas medidas, é fundamental que governos municipais, estaduais e federais caminhem todos na mesma direção para ampliá-las e fortalecê-las, uma vez que a adoção parcial e isolada nos levará ao prolongamento da crise sanitária”, pediram os cientistas.

O boletim destaca na Região Norte a saída do Amazonas da zona crítica para a de alerta intermediário, com ocupação de leitos de UTI covid para adultos em 79%. Alerta, porém, para a piora do quadro na Região Sudeste. Na última semana, o indicador cresceu em Minas Gerais (de 85% para 93%), no Espírito Santo (de 89% para 94%), no Rio de Janeiro (de 79% para 85%) e em São Paulo (de 89% para 92%).

As Regiões Sul e a Centro-Oeste mantiveram índices iguais ou superiores a 96%. Piauí (96%), Ceará (97%), Rio Grande do Norte (96%) e Pernambuco (97%) registram os piores números no Nordeste.

“Desde o início do mês de março, o País assiste a um quadro que denota o colapso do sistema de saúde no Brasil para o atendimento de pacientes que requerem cuidados complexos para covid-19”, sustentam os pesquisadores do Observatório Covid-19.

“Este colapso não foi produzido em março de 2021, mas ao longo de vários meses, refletindo os modos de organização para o enfrentamento da pandemia no País, nos Estados e nos municípios.”

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