Com governo desfigurado, Bolsonaro vocifera da rampa do Planalto – IGOR GIELOW – FOLHA SP

Sem Moro e Guedes, com militares se espraiando, centrão se serve no festim macabro do presidente

Duas fotografias feitas nesta quinta (12) resumem à perfeição o momento político do governo Jair Bolsonaro.

A primeira, tirada pela manhã por Pedro Ladeira, bravo fotógrafo desta Folha, mostra o presidente liderando um séquito de ministros rumo ao hasteamento da bandeira no Palácio da Alvorada. A seu lado, o vice, general Hamilton Mourão.

Bolsonaro, Mourão e ministros participam de cerimônia do hasteamento da bandeira no Alvorada
Bolsonaro, Mourão e ministros participam de cerimônia do hasteamento da bandeira no Alvorada – Pedro Ladeira – 12.mai.2020/Folhapress

Bolsonaro e ministros usavam máscara branca; Mourão, como se estivesse fazendo uma declaração de diferença, um paramento escuro. Perdido lá no fundo da foto, entre um Onyx e outro, está o outrora superministro Paulo Guedes, enrolado com sua proteção facial.

Guedes, aquele que já foi louvado pelos mercados como a salvação do Brasil e que hoje amarga um dólar batendo em R$ 6 (R$ 5 só se o governo fizesse muita besteira, dissera o sábio há poucas semanas) e uma dívida pública que pode fechar o ano dez vezes maior do que o previsto —nada menos que R$ 1,2 trilhão.

Em seu favor, sempre é possível dizer que a culpa é da peste. Fato, nesta conta do Insper R$ 900 bilhões, mais que a economia prevista com a reforma da Previdência em dez anos, são cortesia do Sars-CoV-2 em sua turnê macabra nos trópicos.

Fica mais fácil escamotear a inação e os atrapalhos do governo em coordenar qualquer tipo de estímulo econômico real, isso para não falar na obrigação de zelar pela saúde pública, descumprida diariamente por Bolsonaro desde o princípio da crise. Resultado: é um governo sem face, cujos esteios públicos foram perdidos no caminho.

Falo do ex-ministro Sergio Moro, ora candidato a algoz jurídico do presidente, e de Guedes, um ex-superministro em atividade.

Jair Bolsonaro fala, aos berros, com jornalistas da rampa do Palácio do Planalto
Jair Bolsonaro fala, aos berros, com jornalistas da rampa do Palácio do Planalto – Pedro Ladeira – 12.mai.2020/Folhapress

Noves fora os deméritos próprios de quem tem capacidades inauditas alçadas a dons divinos, só para então revelarem-se terrivelmente mortais, e isso se aplica ambos os casos, o denominador da equação chama-se Bolsonaro.

A toxicidade do presidente não permite associações que não sejam fatais no médio prazo. Veja os militares, que tanto temiam serem confudidos com o governo, por óbvio que isso fosse.

Hoje, entre um depoimento e outro, lidam com contingências, tendo transformado o Ministério da Saúde numa OM (Organização Militar) enquanto Nelson Teich exibe algo estupefato sua completa inadequação à função de ministro. Isso durante a maior crise sanitária em um século no mundo, com corpos sendo contados às centenas diariamente.

Enquanto os militares se espraiam pela administração, causando reações mistas no serviço ativo, o centrão aproveita e faz o que sabe fazer melhor: aproveitar-se da fraqueza do hospedeiro.

Mas ao fim tudo serve para, como acaba sendo no presidencialismo bananeiro vigente, refletir a imagem do mandatário máximo. E ela é desastrosa.

Aqui entra a segunda foto da terça, feita pelo mesmo Ladeira à tarde. Nela, Bolsonaro gesticula enquanto vocifera negativas a jornalistas acerca de algo cada vez mais inegável: o explosivo conteúdo do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril.

Como dizem os políticos, difícil explicar para o povão o enredo complexo colocado ali. A Procuradoria-Geral da República dificilmente fará esforço para iluminá-lo.

Sobram então os berros apopléticos de Bolsonaro, dizendo que não há a “palavra investigação no vídeo”, são mais que suficientes para seus seguidores do mundo virtual —e suas pitorescas, até que alguém se machuque sob os olhos complacentes das autoridades, encarnações que pululam acampadas por Brasília.

Há uma cena na brilhante versão que o cineasta alemão Werner Herzog fez em 1979 para o clássico “Nosferatu” na qual um protagonista assiste com horror a um festim de doentes na praça central da cidadezinha arrasada pela peste trazida pelo vampiro.

Todos vamos morrer, então celebremos em frenesi, junte-se a nós, dizem os infectados. No Brasil da Covid-19 e seus quase mil mortos diários, a cena remete à dança destrutiva promovida pelo presidente em seu entorno. À mesa da Ceifadora, o centrão se serve das sobras da festa.

Igor Gielow

Repórter especial, foi diretor da Sucursal de Brasília da Folha. É autor de “Ariana”.

Com governo desfigurado, Bolsonaro vocifera da rampa do Planalto – IGOR GIELOW – FOLHA SP
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