Como combater a invisibilidade e a solidão dos mais velhos – MIRIAN GOLDENBERG, FOLHA

CORPO

A violência física, verbal e psicológica mora nas nossas casas

Desde março de 2015 tenho pesquisado as experiências de envelhecimento em duas gerações da mesma família: mães e pais nonagenários e seus filhos e filhas com mais de 60 anos. Venho discutindo a violência física, verbal e psicológica contra os mais velhos, o abuso financeiro, preconceitos, estigmas, xingamentos, maus-tratos, negligências, abandonos dentro das nossas próprias casas.

As mulheres falam mais da invisibilidade social, da solidão e da decadência da aparência física, e os homens, do medo da aposentadoria, da impotência e da dependência física. Elas valorizam mais a liberdade e a amizade na velhice; eles destacam a importância da família e dos projetos de vida.

Observo uma tensão permanente entre o desejo de preservar a autonomia por parte dos nonagenários em contraste com o desejo dos filhos de cuidar e proteger os pais mais velhos.

Casal de idosos caminha de braços dados em um parque

Pixabay

Os filhos demonstram muita preocupação com a saúde física e mental dos pais e com a possibilidade de eles serem enganados por gerentes de bancos, prestadores de serviços, vendedores, vizinhos e falsos amigos. Querem proteger os pais da violência, do abuso financeiro e de possíveis acidentes, como quedas e atropelamentos.

Já os nonagenários que eu estou pesquisando, que estão bastante lúcidos e saudáveis, valorizam a autonomia, a liberdade, a independência, a mobilidade, a capacidade de tomarem decisões e resolverem seus problemas cotidianos. Fazem questão de administrar o próprio dinheiro, pagar as contas, fazer as compras, resolver problemas domésticos para se sentirem úteis, ativos e produtivos. O lema deles poderia ser: “Eu não preciso mais, mas eu quero”.

As tensões e conflitos entre pais e filhos são frequentes, como contou um empresário de 93 anos:

“Meu filho não me escuta, não presta atenção no que falo, não respeita minha opinião. É desesperador não ter com quem conversar. Ele vive me mandando fazer o que acha certo ou errado, como se eu fosse uma criança incapaz e inútil. Quer controlar com quem eu saio, minhas amizades e até o meu dinheiro, como se eu não tivesse capacidade de escolher meus amigos e gastar meu dinheiro como eu quero. Quer controlar até as minhas idas ao supermercado”.

O filho, um economista de 65 anos, disse que o pai é “muito difícil e teimoso”:

“Meu pai é muito independente, faz questão de morar sozinho. Não segue as recomendações médicas, ainda dirige e sai de casa todos os dias sem me avisar. Empresta dinheiro para todos os amigos. Peço para ele me dar a senha das suas contas no banco para eu controlar as despesas, mas ele não dá. Vai ao supermercado três ou quatro vezes por dia só para encontrar os amigos”.

Uma dona de casa de 94 anos reclamou que mora em uma “prisão domiciliar”:

“Até os 92 anos vivi muito bem sozinha, mas minha filha se separou e veio morar comigo. Ela quer fazer tudo por mim, resolver todos os meus problemas, não me deixa fazer nada. Eu me sinto inútil, um peso para ela. Ela inventou de contratar uma cuidadora para me vigiar e controlar tudo o que eu faço. Não tenho mais paz, liberdade e privacidade”.

A filha, uma psicóloga de 63 anos, afirmou que a mãe é “muito rebelde”:

“Minha mãe é muito teimosa, quer fazer tudo sozinha, do jeito dela, mas já caiu duas vezes e foi parar no hospital. Sei que pode ser exagero, mas tenho vontade de colocá-la numa bolha de proteção para ela não ficar doente ou cair de novo. Contratei uma cuidadora para fazer companhia para ela, para ir ao supermercado, banco, farmácia. Mas ela não aceita, é uma briga constante”.

A falta de autonomia é uma espécie de morte simbólica para os mais velhos. Com o envelhecimento da população brasileira, é cada vez mais comum a convivência conflituosa entre diferentes gerações. A preocupação dos filhos pode ser expressão de cuidado e afeto, mas é preciso evitar a tentativa de cercear a liberdade de mulheres e homens lúcidos, ativos e saudáveis que ainda são capazes de ser protagonistas da própria vida. É sempre bom lembrar que os mais jovens de hoje serão os velhos de amanhã, não é mesmo?

Como combater a invisibilidade e a solidão dos mais velhos – MIRIAN GOLDENBERG, FOLHA
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