CONFLITO VAI SOBREVIVER A UM CESSAR-FOGO – JOSIAS DE SOUZA, UOL

Ao atacar e assumir o controle da usina nuclear ucraniana de Zaporíjia, os militares russos demonstraram no campo de batalha o que o presidente francês Emmanuel Macron tentou resumir na frase que pronunciou depois de conversar por telefone com Vladimir Putin: “O pior ainda está por vir.” O problema deixou de ser a ausência de um acordo capaz de interromper os ataques. A questão é que a guerra assumiu contornos de um conflito que sobreviverá a qualquer acordo de cessar-fogo.

A conquista de instalações como a usina nuclear é parte central da estratégia russa. Supondo que o incêndio provocado pelo ataque não interrompeu o funcionamento da usina, como informam as autoridades, Putin passou a dispor do poder de desligar da tomada 25% do território ucraniano que recebe a energia de Zaporíjia. Avanços como esse vão empurrando a resistência liderada pelo presidente ucraniano Volodymir Zelenski para uma espécie de beco sem saída.

Em duas rodadas de negociação, os representantes de Putin e de Zelensky produziram apenas um acordo sobre a abertura de “corredores humanitários” para saída de civis das zonas de conflito. É muito relevante. Mas, na farmacologia de uma guerra, é apenas um paliativo. Combinou-se que haverá um terceiro encontro. Putin corre contra o tempo para que seus representantes cheguem à mesa de negociações dando as cartas.

A superioridade militar da Rússia vai se impondo num ritmo muito mais lento do que Putin havia programado. A lentidão fez com que o líder russo ganhasse a aparência de um vitorioso derrotado. Prevalecendo, enfrentará milícias que estão sendo armadas em tempo real. Ironicamente, o ocidente fornece antecipadamente as armas que transformarão o quintal da União Europeia numa zona de combate perene.

CONFLITO VAI SOBREVIVER A UM CESSAR-FOGO – JOSIAS DE SOUZA, UOL
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