CONTO DO VIGÁRIO – JOSIAS DE SOUZA, BLOG DO JOSIAS NO UOL

Na forma, o desembarque de Sergio Moro foi a conversão de um ato administrativo —o pedido de demissão— em espetáculo. No conteúdo, Moro se expressou como um navio que abandona os ratos. Agora, chamado de mentiroso por Jair Bolsonaro e torpedeado pela milícia bolsonarista nas redes sociais, o ex-juiz da Lava Jato soa como se tivesse potencial para levar o governo a pique.

As provas serão apresentadas no momento oportuno, quando a Justiça solicitar”, declarou à revista Veja. Moro empilhou evidências do descompromisso de Bolsonaro com o esforço anticorrupção: o esvaziamento do Coaf, a lipoaspiração do projeto anticrime, a sanção do juiz de garantias, o namoro com prontuários do centrão e, por último, a demissão do chefe da Polícia Federal. “Foi a gota d’água”, afirmou.

Analisando-se a lista de Moro, gota d’água vira eufemismo para gota ácida. Difícil compreender como um magistrado de mostruário, com 22 anos de janela e uma Lava Jato na biografia, tenha demorado um ano, quatro meses e inúmeras gotas tóxicas para perceber que Jair não era aquele Bolsonaro que se vendera na campanha como uma novidade com 28 anos de vida parlamentar.

A demora para a caída da ficha leva Moro a tratar Bolsonaro como uma espécie de conto do vigário em que ele caiu. O figurino de tolo não orna com a imagem do personagem que encarcerou a fina flor da oligarquia política e econômica do país. O ex-ministro disse que nunca teve a intenção “ser algoz do presidente ou prejudicar o governo.”

Suprema ironia: pela primeira vez em sua história, Moro busca a condenação de alguém para inocentar a si próprio. É como se pleiteasse, com sua delação, o perdão por ter cometido o crime da ingenuidade. Algo que, para um juiz, mereceria a pena do vexame perpétuo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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