Cordial, blasé e decorativo – RUY CASTRO, FOLHA

Mourão deve sentir-se reconfortado por ser só o vice-presidente dessa miséria

Você o vê de vez em quando na televisão —não tanto que dê para saturar, nem tão pouco que não o reconheça. É um homem em trânsito permanente. Quando um repórter o laça para uma pergunta, ele está sempre saindo de um carro ou entrando em outro, subindo ou descendo rampas, cercado de aspones e a caminho de algum lugar. Dir-se-ia ocupadíssimo, mas, como sabe ser de sua obrigação, não deixa de conceder um ou dois minutos para um papo com os rapazes e moças. E, ao fazer isso, exibe toda a sua cordialidade, fleuma e bonomia. É o general Hamilton Mourão, vice-presidente da República.

Não importa a pergunta. Se o jornalista falar da tragédia ambiental, do fogo na mata, dos animais carbonizados, do desmatamento criminoso, do ataque às nascentes, da destruição da terra ou da expulsão dos indígenas, ele responderá a tudo com seu ar blasé e bonachão. Não pode desmentir as acusações filmadas e documentadas, mas também não vê nada demais nelas. Vamos resolver, sorri. E não o altera que, a cada sorriso benigno que oferece às câmeras, uma ararinha azul ou onça-pintada vire torresmo pela ação ou inação de seus subordinados.

É o seu estilo, a naturalidade com que recebe as gafes, impropriedades e mentiras do governo. Não é tão grave assim, não fomos nós que fizemos, não foi bem isso que ele quis dizer —são alguns de seus mantras para defender os homens que estão demolindo a saúde, a educação, o trabalho e o caráter do país.

Ou talvez nada seja com ele. Mourão deve sentir-se reconfortado por ser apenas o vice-presidente dessa miséria —confiante de que, por sua função subalterna, não será cobrado por ela.

Mas é aí que se engana. Ele faz parte do governo. Ao ser tão “compreensivo” diante do que vê e que sabe, está pondo seu jamegão no que acontece lá dentro. A não ser que não veja nem saiba nada, e seja mesmo só decorativo —como se julga.

Ao lado de assessores, Hamilton Mourão deixa o Palácio do Planalto – Wallace Martins/Futura Press/Folhapress

Ruy Castro

Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues.

MEU COMENTÁRIO:

Três pragas assolam o Brasil neste momento: 1) a pandemia; 2) a seca e as queimadas; 3) o desgoverno Bolsonaro.

Por mais bonachão que queira parecer, o vice-presidente não pode se furtar ao inescapável fato de fazer parte do desgoverno, bem como todos os demais que nele permanecem, fazendo ou nada fazendo a respeito de nada.

Não se pode culpar o governo pelos fatos como o da pandemia e o da falta de chuvas que alimenta o fogo.

Mas não há como desculpar esse desgoverno pela negação da pandemia e omissão das providências que lhe cabia, e mesmo pelas nomeações absurdas como confirmar no Ministério da Saúde um general que nao é médico, deixando que o mal se espalhe e sequer se apiedando dos que se foram.

Da mesma forma, a própria polícia federal entende que em Mato Grosso tanto fogo não é culpa só da natureza e da seca, mas de atos criminosos de fazendeiros que ateiam fogo em matas para se apossar das terras e nela por seu gado a pastar.

O pior é verificar pelas pesquisas que o povo faminto para quem $ 600 eram uma benção divina, se dispõem a ungir por mais quatro anos o mito que nos desgoverna, perante uma “oposição” que não existe sequer no papel.

Tempos difíceis e tristes estes que atravessamos…

Cordial, blasé e decorativo – RUY CASTRO, FOLHA
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