COZINHA BRUTA: Jô Soares conquistou respeito para gordos e comilões – MARCOS NOGUEIRA, FOLHA

Jô Soares conquistou respeito para gordos e comilões
Nos cascudos anos 1980, comediante trouxe o gordo para o palco principal do entretenimento no Brasil

Marcos Nogueira
SÃO PAULO
Um amigo de adolescência tinha o compacto em que Jô Soares cantava sob a identidade de Capitão Gay.

Capitão Gay era o super-herói que Jô, em roupa colante pink, representava no programa “Viva o Gordo”, exibido pela Globo nos anos 1980. O ajudante do capitão, papel de Eliezer Motta, se chamava Carlos Suely –possivelmente o melhor nome de personagem de todos os tempos.

Eu e o amigo ignorávamos por completo o lado A do disco, com o tema do Capitão Gay (“Quem é o defensor das minorias? Gay!”). Tocávamos repetidamente e às gargalhadas o lado B, onde Jô regravara um de seus temas prediletos: “Um Croquete”.

O refrão: “Um croquete (sem espaguete!), um croquete (sem omelete!), um croquete… era tudo que eu podia pagar”.

Jô era obcecado por esse croquete –paródia de uma velha canção americana de nome “One Meat Ball” (“Uma Almôndega”). Já havia lançado a música num LP da personagem Norminha, do programa “Faça Humor, Não Faça Guerra”. Voltaria a cantá-la acompanhado do Quinteto Onze e Meia.

A comida ocupava espaço enorme na mente gigante de Jô Soares. Também, né? Estamos falando do homem que assumiu o rótulo de gordo em tempos cascudíssimos. Não me refiro apenas à ditadura, mas à sociedade como um todo, absolutamente hostil a quaisquer diferenças.

Jô trouxe o gordo (e, por tabela, o comilão) para o palco principal do entretenimento no Brasil. Botou o gordo no nome do programa. Aparecia para milhões de pessoas nos trajes apertadíssimos do Capitão Gay. Fez da forma roliça um ativo que lhe rendeu dinheiro, respeito e ainda mais fama.

Nas discussões identitárias atuais, a questão do gordo é provavelmente a única em que eu, homem hétero branco, tenho lugar de fala –um lugar espaçoso e acolchoado, com uma bacia de pipoca na mesa de centro e um frigobar cheio de cerveja ao alcance das mãos.

Sem brincadeira, não é moleza ser gordo. Eu mesmo ainda não me assumi… ou, melhor, parece que estou me assumindo neste instante.

Meu guarda-roupas é cheio de peças que eu sei que nunca mais vou vestir. Resisto até a morte à ideia de jogá-las fora. À noite, nos sonhos, sou sempre jovem, magro e ágil. Detesto acordar.

A gordofobia carrega um componente que não aparece em outras formas de discriminação. Aos olhos de quem condena o gordo, o gordo é gordo porque quer ser gordo.

Só fanáticos reacionários pensam que alguém escolhe a orientação sexual. Ninguém opta por nascer preto ou judeu. Ninguém, fora os suicidas, escapa voluntariamente da velhice. Já o gordo é assim por glutonaria e preguiça. Nas entrelinhas, a obesidade equivale à frouxidão de caráter.

Coma menos e melhor. Treine cinco vezes por semana e você se tornará um ser humano mais atraente.

Não. Isso, para mim, significa infelicidade. Por que eu escolheria ser mais infeliz? Estou com o Jô, cujo esporte era comer feijão gelado de madrugada.

De mais a mais: livre da pança, eu teria tanta credibilidade quanto um médico tabagista. Tanta graça quanto o Jô Soares magro.

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