COZINHA BRUTA, MARCOS NOGUEIRA, FOLHA

22.jan.2021 às 23h15

Viva a bolacha, viva o cuscuz paulista, viva a vacina do Butantan

Vai ter bolacha, sim. Se quiser biscoito, vá para o Rio de Janeiro.

Vai ter purê de batata no hot-dog. Caso vocês não saibam, ele é a argamassa que sustenta a maravilha arquitetônica do dogão paulistano. Tem estado por aí que joga uva passa e ovo de codorna na salsicha.

Vai ter pizza de calabresa sem queijo e com muita cebola. O resto do Brasil, que descobriu a pizza neste século, acha que queijo é condição sine qua non da pizza. Com muçarela e uma mão cheia de orégano, até sarapatel vira pizza. E vou repetir a palavra “pizza” quantas vezes precisar. Não existe “redonda”.

Aliás, uma dica para quem está em São Paulo e faz questão de ketchup na pizza: você o encontra em sachês na Pizza Hut da área de embarque de Congonhas, junto ao portão da ponte aérea.

Vai ter cuscuz com sardinha, palmito e ervilha. Nada contra os outros cuscuzes. Cuscuz nordestino é lindo. Cuscuz carioca é mara.

O que não pode é o bullying nacional dirigido ao nosso cuscuz, patrimônio da cultura alimentar paulista. Fulaninho vem dizer que é feio. Pô, tudo ajeitadinho lá: ovo cozido, sardinha, tomate dispostos em intervalos uniformes… Feia é a maniçoba. Essa gente não tem espelho em casa?

Já aviso que vai ter feijoada com bisteca, linguiça frita, banana à milanesa, pastel e caldinho de tira-gosto e, se reclamar, leitão orgânico ou porchetta romana. Vai ter feijoada nobre e caipirinha de vodca, se o freguês quiser. Purista de feijoada é o fim.

Feijoada, claro, só se come às quartas e aos sábados.

Às segundas, o almoço deve ser virado à paulista –para quem é de fora, tutu de feijão, arroz, bisteca de porco, linguiça, torresmo, banana, couve e ovo frito. Gema mole, por favor.

Às terças, dobradinha –meio fora de moda– ou bife a rolê. Quintas, rabada ou massas em geral. Peixe na sexta e macarronada com frango no domingo.

Vai ter lanche, aquele disco de carne moída entre duas fatias de pão. Amigos, cada um dá o nome que quer para as coisas. Na Paraíba, chamam boi ralado de cachorro-quente. No Rio, o bauruzinho é joelho. Nem vou dizer o nome do brigadeiro lá no Sul.

Não sou secessionista nem chamo São Paulo de “locomotiva do Brasil”. Vade retro esse tipo de gente.

Quem me acompanha sabe que, em geral, o tom aqui é de crítica das presepadas que a gastronomia paulista faz aos montes.

Mas segunda-feira (25) é aniversário da cidade, estamos precisando de um empurrão na autoestima e, se há algo a celebrar nestes dias, é o início da vacinação contra a Covid-19. Primeira dose aplicada em solo paulistano, numa enfermeira do serviço público estadual.

Vale, só nesta semana, brincar um pouco de orgulho paulista e paulistano. São Paulo, por uma série de fatores, é a capital da gastronomia do Brasil –a “capital mundial”, inventada por políticos, é patacoada.

Viva a bolacha, viva o cuscuz paulista, viva a vacina do Butantan. Só me recuso a louvar o governador, o prefeito e o sanduíche com 100 quilos de mortadela.

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