COZINHA BRUTA – MARCOS NOGUEIRA, FOLHA

Manaus é a mais improvável das cidades. Notável que não tenha sido engolida pela água, tomada pelo mato, cozida pelo vapor amazônico.

Na primeira vez em que estive lá, cheguei domingo à tarde. Ruas desertas, quase dava para ouvir os ovos fritando no asfalto. Ao anoitecer, as pessoas saíram das casas para a rua. Estratégias de sobrevivência.

Mitos podem ser desatrosos. A propalada fartura da Amazônia é um desses desastres míticos.

Manaus resiste como enclave humano num ambiente demasiado hostil. É quente e úmida ao ponto de embaçar os óculos. É insalubre. Sempre foi pestilenta. Ironicamente, agora a malária ganha a dimensão comparativa de uma gripezinha.

Tudo berra e grita na Amazônia central, nada é sutil. A teimosia de quem se assentou ali criou uma paisagem exuberante também na gastronomia.

Manaus tem o mercado Adolpho Lisboa, rival do Ver-O-Peso em arquitetura e variedade de comidas assombrosas, menos muvucado.

Tem o Banzeiro, restaurante espetacular com conveniente sucursal em São Paulo. Tem o Bar do Armando, ao lado do Teatro Amazonas. Tem o Shin Suzuran, com tataki de tucunaré e outros exemplares de fusion food para os japoneses da Zona Franca.

Tem até um restaurante que resgata formigas e pimentas das tradições indígenas do alto rio Negro. Eu falei que não há sutileza?

Tem tambaqui, tem sardinha de rio, tem matrinxã. Tem o pirarucu: lerdo, gordo, cascudo, sedentário, enorme, nada voraz e melancólico peixe de águas paradas. Tipo eu.

O pirarucu é um raro peixe de respiração aérea, precisa subir à superfície para tomar oxigênio. Se impedido de respirar fora d’água, o pirarucu é um peixe que morre afogado.

Patético, tanto quanto morrer por asfixia no pulmão do planeta.

COZINHA BRUTA – MARCOS NOGUEIRA, FOLHA
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