Crime no AM piora imagem do Brasil, mas tem efeito eleitoral limitado – IGOR GIELOW, FOLHA

Crime no AM piora imagem do Brasil, mas tem efeito eleitoral limitado
Efeito eleitoral para Bolsonaro tende a ser limitado a parâmetros já estabelecidos

O assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips completa um ciclo de decadência da imagem internacional do Brasil que não se via desde os tempos da ditadura de 1964 e dos primeiros anos da redemocratização.

Poucos temas brasileiros atraem tanta atenção no exterior quanto a Amazônia, até pela diminuição do papel internacional do país após a onda das commodities dos anos 2000, habilmente surfada por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e sua megalômana política externa, desaguando no delírio ideológico do Itamaraty de Ernesto Araújo e sua atual versão anódina.

​​É um debate eivado de tolices lá fora, com ideias de cessão de soberania e simplificações como a ideia do “pulmão do mundo”, aspas compulsórias.

Mas ele tem como fio condutor a noção, essa sim clara, do papel regulador do ameaçado clima mundial exercido pela vasta floresta tropical e equatorial sob controle de Brasília.

Bolsonaro, por sua vez, encarna tudo o que é contrário à visão moderna de integração amazônica.

Na origem um fetiche dos militares, que desde o começo do século 20 colocam com razão a região com eixo de qualquer estratégia, a ideia bolsonarista segue ancorada em elementos obsoletos: a ocupação econômica sem freios, o incentivo ao garimpo, a vista grossa ao banditismo oficioso.

Com isso, os grandes incêndios e o aumento do desmatamento a partir de 2019, já sob a batuta e a reação apoplética de Bolsonaro no Planalto, formam com a tragédia da dupla no vale do rio Javari um quadro coerente para o observador estrangeiro —mesmo que as razões do ocorrido existam há décadas.

A Amazônia é a nossa área tribal paquistanesa, nossa República Centro-Africana. Na realidade, isso tem a ver com o que pensa e faz no cargo Bolsonaro sobre a região, mas nada tem de novo.

Basta lembrar de Chico Mendes, morto no ocaso da Nova República em 1988, ou de Dorothy Stang, assassinada no 2005 que antecedeu uma reeleição que se mostrou fácil para Lula.

Isso tem alto custo num mundo em que o ESG (conceito bastante duvidoso que avalia empresas e países por seu desempenho no ambiente, na responsabilidade social e na governança) dá todas as cartas e orienta a ação de investidores.

A figura pessoal do presidente não ajuda. A total falta de empatia ao tratar do caso Bruno-Dom, com falas que além de infelizes traem sua real visão do ativismo ambiental e do jornalismo, apenas confirma aquilo que se vê em charges e bonecos satíricos mundo afora. Bolsonaro é um pária, levando consigo a imagem do Brasil.

Uma diplomata lotada na Europa, com experiência em três continentes, comentava antes da confirmação da morte no Amazonas que nunca havia tido tanta vergonha de representar o país.

Ela conta que é abordada com perguntas constrangedoras sobre a saúde mental do mandatário e sobre os riscos de a situação escalar em termos de risco democrático, visto que a retórica golpista de Bolsonaro não passa despercebida.

É um processo que já se desenhava com o impeachment de Dilma Rousseff (PT) em 2016, quando o “Fora, Temer” virou base de discurso de ativismo à esquerda majoritário entre brasileiros fora do país —menos entre os trumpistas da Flórida, claro. Mas o caso de Bolsonaro é mais orgânico.

A agenda ambiental reversa é uma escolha clara da pessoa do presidente e de seu entorno, com ele e os seus dobrando a aposta no choque retórico sempre que possível. O dano à imagem e a negócios do Brasil é uma realidade.

A opção bolsonarista tem cunho eleitoral. A ideia de que o assassinato vá prejudicar gravemente a campanha à reeleição parte de um erro conceitual. O eleitor que apoia o presidente não irá mudar de ideia porque ele disse que a dupla foi imprudente.

Isso porque, e aí os ditos progressistas seguem sem alcançar o país em que vivem, esse eleitorado pensa de forma semelhante.

Assim como o crime em si tenderá apenas a reforçar a rejeição a Bolsonaro e bolsonaristas entre quem já os despreza. Como no citado caso de Stang, não parece que as urnas refletirão a comoção.

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