CRISE GANHA INGREDIENTE NOVO: A FALTA DE GOVERNO – JOSIAS DE SOUZA, BLOG DO JOSIAS NO UOL

Ao contrário da pandemia do coronavírus, uma crise produzida sob a influência de fatores externos, o pandemônio em que se converteu a gestão de Jair Bolsonaro é um legítimo produto nacional. Teve origem no estilo errático do presidente. E ganhou um ingrediente adicional: a ausência de governo.

O presidente torpedeia a política de isolamento social preconizada pelo Ministério da Saúde. O vice Hamilton Mourão atira no discurso de Bolsonaro, dizendo que o isolamento é política de governo e que o presidente não se expressou bem. Ambos acertam na sociedade, que enxerga tumulto onde deveria existir unidade.

No aniversário de um mês do primeiro diagnóstico de coronavírus no Brasil, o Ministério da Saúde informou que o país atravessará nos próximos dias uma “tempestade perfeita”. Além do novo vírus, que avança em velocidade fulminante, haverá outras duas epidemias tradicionais: a de influenza e a de dengue.

No mesmo dia, descobriu-se que o Planalto lançará uma campanha publicitária que convida o brasileiro a deixar o recolhimento domiciliar para desafiar o vírus nas ruas, de peito aberto. “O Brasil não pode parar”, eis o nome da cruzada heroica. A Fiocruz expõe os riscos num levantamento que detecta explosão de internações por problemas respiratórios.

A campanha ganhou o noticiário nas pegadas de uma entrevista em que a equipe do ministro Henrique Mandetta (Saúde) levou à vitrine uma contabilidade macabra. O Brasil registrou nesta quinta-feira o maior número de novos diagnósticos de coronavírus (482) e de mortes (20). Nessa contabilidade, o total de infectados bateu em 2.915. Os mortos, 77.

“A previsão é de que teremos 30 dias muito difíceis“, disse o secretário-executivo da Saúde, João Gabbardo, às voltas com a síndrome do que está por vir. “Teremos coronavírus, que é novidade; teremos influenza, que é rotina; e teremos também o pico da dengue”, declarou o secretário de Vigilância em Saúde Wanderson Oliveira. “Uma tempestade perfeita.”

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A despeito do pano de fundo tóxico, Bolsonaro está tranquilo. Após o pronunciamento em que voltou a se referir ao coronavírus como transmissor de uma “gripezinha”, saiu-se com um argumento novo para justificar a tese segundo a qual o Brasil precisa “voltar à normalidade”.

Para Bolsonaro, os nativos dessa terra de sabiás dispõem de imunidade natural contra a doença forasteira. “O brasileiro precisa ser estudado”, disse o presidente. “Ele não pega nada. Você vê o cara pulando em esgoto ali, sai, mergulha, tá certo? E não acontece nada com ele.”

Os poderes curativos da mistura de lama com dejetos estão pendentes de verificação científica. Mas uma coisa já é certa: contra falta de comando não há remédio.

Diante de uma “tempestade perfeita”, a providência mais óbvia seria abrir o guarda-chuva. Mas a campanha publicitária anti-isolamento e a língua de Bolsonaro transformam os conselhos da pasta da Saúde em algo tão inútil para o brasileiro quanto um guarda-chuva sem o pano que o recobre. As intempéries e as infecções têm livre acesso.

Depois da tempestade virá a cobrança: uma recessão histórica. Na contramão de todos os governantes do mundo, Bolsonaro demora a articular um plano decente de socorro financeiro às pessoas e às empresas mais vulneráveis à crise. Decerto imagina que um mergulho no esgoto resolverá tudo.

Contra esse pano de fundo tóxico, o eleitor brasileiro, com seu guarda-chuva sem pano, vai trocando gradativamente as ruas e as redes sociais pelas janelas. Sob os efeitos dos panelaços, Bolsonaro tenta trazer as manifestações de Mourão na coleira. “O presidente sou eu, pô“, disse o capitão sobre a ousadia que levou o vice a declarar que ele não se expressara bem ao refutar o isolamento social.

Bolsonaro impõe a réplica a Mourão porque é um ser humano inseguro. De resto, aprendeu com Michel Temer que os vices, como os ciprestes, costumam crescer à beira dos túmulos.

Desde o início do governo, Mourão oferece aos gravadores e microfones um punhado de contrapontos sóbrios aos despautérios do titular. Se é presidente, como diz, Bolsonaro deveria presidir. Em política, não há vácuo. As ausências, cedo ou tarde, são preenchidas.

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