De quatro em quatro anos, jogar por uma bola – LEO ANVERSA, O GLOBO

De quatro em quatro anos, jogar por uma bola

O futebol , como a própria vida, é um esporte onde nem sempre vence o melhor, onde a sorte conta e o inesperado e o inexplicável acontecem

Por uma bola. O comentarista esportivo explicava a tática do time pequeno que enfrentaria, à noite, o grande líder do campeonato, um time recheado de craques, campeão da — coisa — toda. Quando é assim, tem que jogar por uma bola, repetia o expert. Acostumado a acompanhar vitórias consagradoras e derrotas deprimentes em jogos épicos, ele revelava ao telespectador onde sobrevive a esperança dos pequenos.

Time grande tem técnico experiente, excelentes jogadores, goleiro que pega tudo. Encarar o jogo de igual para igual com uma equipe muito superior é pedir para levar uma goleada, um 7×1, uma humilhação. O que fazer então, se a lógica funciona a favor dos melhores, dos mais preparados? O jeito é colocar todo mundo atrás, na defesa, aguentando a pressão adversária, segurando o resultado e, sofrendo, esperar. Esperar o quê?

Um jogo de futebol Foto: Adrian Dennis / AFP
Um jogo de futebol Foto: Adrian Dennis / AFP

Aí, leitor, aí é que entra a poesia da coisa, aquela beleza fabulosa que reside nos detalhes. O futebol — tal como a própria vida — é um esporte onde nem sempre vence o melhor, onde a sorte conta e o inesperado e o inexplicável acontecem com maravilhosa frequência. O time pequeno espera que o adversário se acomode na sua superioridade, que confie demais na sua competência e comece a jogar de salto alto, a não ir na bola que vai longe, a ficar distraído pelo incentivo da grande torcida. Espera que — finalmente — o grande deixe passar o seu atacante, confiando na sua falta de habilidade. Cabe ao time pequeno saber sofrer e esperar esta chance, essa única bola disponível, para tentar, com fé no improvável, chegar ao gol.

Vencer, enfim.

Desde que surgiu o “Jogar por uma bola”, anos atrás, senti que havia me deparado com uma filosofia de vida: não tem batalha perdida de véspera, mesmo para o menor dos times. Há nessa frase algo que transcende o campo, as quatro linhas, a própria bola. Quantas vezes somos um São Cristovão, um Íbis, jogando contra um Barcelona, um Liverpool? Quantas e quantas vezes jogamos por uma bola na política, no amor, no mais corriqueiro ato do dia a dia?

Você entra numa fila enorme de supermercado e do último lugar percebe que todos à sua frente tem carrinhos cheios, quase transbordando. Você leva apenas uma cestinha com dois iogurtes e um detergente. Quando está conformado em perder um tempão por quase nada nota que uma funcionária do supermercado está indo em direção ao caixa fechado. É por uma bola.

O Anderson, do RH, é apaixonado pela Kelly, da contabilidade, mas ele nunca a encontra no refeitório da firma e os horários de entrada não coincidem, muito menos os de saída. Uma colega o avisa que ela tem um noivo firme. Com casamento marcado, comenta outro. Na festa de fim de ano, Anderson encontra a Kelly, chateada por ter brigado com o tal noivo. É por uma bola.

Passamos quatro anos tropeçando em buracos, esperando o ônibus que não aparecem nunca, desviando de obras paradas e com medo que qualquer chuva um pouco mais forte provoque uma tragédia. Quatro anos sofrendo com hospitais largados à própria sorte e escolas entregues a Deus. No próximo domingo tem eleição. É por uma bola.

De quatro em quatro anos, jogar por uma bola – LEO ANVERSA, O GLOBO
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