Depois da catástrofe – VINICIUS MOTA, FOLHA

Pandemia desafia intuição humana, premia paciência e catapulta valor da vacina

A Guerra Fria suscitou pesadelos de aniquilação nuclear e estimulou especulações sobre como seria a vida na Terra após a detonação das ogivas do apocalipse.

A pandemia da Covid-19 não chega perto do que teria sido aquele drama, mas, como poucos acontecimentos na história recente, ela risca no chão de todos os rincões do planeta um antes e um depois.

Profissional trabalha para desenvolver vacina experimental contra Covid-19 em laboratório em Pequim, na China
Profissional trabalha para desenvolver vacina experimental contra Covid-19 em laboratório em Pequim, na China – Nicolas Asfouri/AFP

E com o que se parece, até aqui, o saldo do “dia seguinte” a essa transformação global? Com a vista ainda embaçada pela fumaça opaca e a chuva escura, eis alguns esboços grosseiros:

1. Fomos castigados pelas armadilhas da matemática. Quando cada infectado transmite o vírus a 4 pessoas num período de 14 dias, menos de quatro meses separam o caso mil do 90 milhões. Não há intuição humana capaz de captar adequadamente tamanha disparada.

2. O parasita explora as idiossincrasias da nossa mente, moldada no longo processo da evolução para consumir o máximo possível no presente, mas apenas mais recentemente recauchutada para admitir alguma perda agora em nome de mais bem-estar no futuro.

3. Algumas das sociedades mais pacientes em relação às tentações do consumo imediato parecem
ser também as que melhor combatem a ameaça epidêmica. A notória cautela asiática, nórdica e europeia, expressa por exemplo em taxas mais elevadas de poupança, pode estar rendendo frutos também na frente sanitária, o que só saberemos ao certo mais tarde.

4. Poucos adventos na história da humanidade terão tido valor potencial tão saliente quanto a vacina contra novo coronavírus. Se ela já existisse, o mundo deixaria de perder mais de US$ 5 trilhões só neste ano. A vacina é o pote de ouro jamais sonhado pelo investidor mais voraz.

5. A morte deixou de ser banal, abundante e costumeira para a maioria das sociedades. Políticos que não entenderam a mudança comportam-se como fósseis que ainda caminham.

Vinicius Mota

Secretário de Redação da Folha, foi editor de Opinião. É mestre em sociologia pela USP.

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