Desmatamento e fuga de capital – EDITORIAL DE O ESTADO

Há uma ameaça real de retirada de investimentos estrangeiros no País caso o governo brasileiro não consiga deter o desmatamento e, desta vez, o presidente Jair Bolsonaro e membros de seu governo não poderão atribuir à desinformação – como fizeram outras vezes – as críticas feitas por 29 instituições financeiras de 8 países à maneira como a questão ambiental vem sendo tratada na esfera federal. Muitas dessas instituições (fundos, bancos e gestoras de investimento) aplicam quantias expressivas em empresas que atuam fortemente no Brasil em áreas diversas, especialmente a do agronegócio, e conhecem bem a situação ambiental do País. Em carta entregue a Embaixadas do Brasil em oito países, o grupo de instituições responsável por ativos estimados em US$ 3,75 trilhões afirma que “o desmantelamento de políticas ambientais e de direitos humanos” pelo governo Bolsonaro cria “incerteza generalizada sobre as condições de investir ou de prestar serviços” no País e ameaça retirar seus investimentos caso não seja detido o avanço do desmatamento.

Em ocasiões anteriores, o presidente da República e seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, entre outras autoridades federais, minimizaram críticas dessa natureza, tratando-as com um desdém que mal esconde inoperância, incompetência, desídia, irresponsabilidade ou qualquer outra característica de uma ação federal marcada por completo desprezo pela questão ambiental. Esse comportamento pode comover a ala mais radical do bolsonarismo, mas não está mais sendo tolerado por pessoas e instituições respeitáveis, no País e no exterior.

“Como instituições financeiras, que têm o dever fiduciário de agir no melhor interesse de longo prazo de nossos beneficiários, reconhecemos o papel crucial que as florestas tropicais desempenham no combate às mudanças climáticas, protegendo a biodiversidade e assegurando serviços ecossistêmicos”, afirmam os gestores de recursos na carta que tem como destinatários agentes públicos que trabalham em Brasília, a começar pelo presidente da República e seu ministro da área ambiental. A carta adverte que o aumento das taxas de desmatamento no Brasil pode criar dificuldades crescentes para empresas que atuam nas áreas desmatadas terem acesso aos mercados internacionais. Até mesmo títulos soberanos brasileiros poderão vir a ser considerados de alto risco caso o processo de desmatamento não seja contido, advertem as instituições.

Elas têm recursos aplicados em grandes empresas exportadoras e negociadoras mundiais de commodities que respondem por parte expressiva das vendas externas brasileiras. Há alguns dias, o chefe de investimentos de uma das empresas signatárias da carta entregue ao governo brasileiro, a KLP, disse à agência Reuters que, se sua avaliação sobre as políticas ambientais brasileiras for negativa, “o desinvestimento pode ser o resultado provável, possivelmente ainda este ano”.

Motivos para uma avaliação negativa não faltam. A carta cita, entre outros, as “controvertidas” propostas legislativas de regularização de terras públicas, a abertura de terras ocupadas por povos indígenas para mineração e o afrouxamento de regras para licenciamento ambiental. Lembra também a recomendação do ministro Ricardo Salles, na mal-afamada reunião ministerial de 22 de abril, de “passar a boiada” da legislação de simplificação de normas ambientais enquanto a pandemia estiver no centro das preocupações do País.

Tais comportamentos do governo mereceram dura condenação de nove ex-ministros do Meio Ambiente, para os quais “a sustentabilidade socioambiental está sendo comprometida de maneira irreversível por aqueles que têm o dever constitucional de garanti-la”. Dirigentes do setor financeiro no Brasil também estão preocupados. O presidente do Itaú Unibanco, Candido Bracher, disse que “precisamos nos mover” contra os incêndios na Amazônia.

Como lembraram os ex-ministros do Meio Ambiente, “sem sustentabilidade, não haverá futuro para nenhum povo”.

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