Diante de perda de apoio, bolsonarismo radicaliza – VERA MAGALHÃES, GLOBO

Por Vera Magalhães29/03/2021 • 09:50Policial morto após surto em SalvadorPolicial morto após surto em Salvador | Reprodução da TV

Dois movimentos complementares podem ser assistidos desde a semana passada: de um lado, setores que foram vitais à eleição de Jair Bolsonaro ou que se aproximaram do governo dão sinais de impaciência e desencantam e ensaiam um rompimento; de outro, depois de um teatro de tentativa de conciliação, os setores mais ideológicos do bolsonarismo demonstram claramente que sua resposta ao isolamento do presidente será a radicalização das ações e do discurso.

Eis uma combinação com potencial explosivo.

Começou com a pressão do Congresso pela substituição de Ernesto Araújo. Na audiência em que o chanceler foi tratorado pelos senadores, a mesma na qual o assessor especial da Presidência Filipe G. Martins fez o gesto de dupla conotação negativa postado atrás do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, já havia acontecido, na mesma manhã, uma cobrança enfática do presidente da Câmara, Arthur Lira, sobre Araújo.

Ou seja: o gesto de Martins veio já como resposta e recado aos radicais bolsonaristas de que seria preciso resistir e defender a permanência do ministro.

Araújo e Martins são braços do poder de Eduardo Bolsonaro sobre as relações exteriores. O filho do presidente não quer perder sua margem de manobra na área, e tanto é poderoso que nenhum dos dois caiu até agora, a despeito da enorme pressão vinda do Congresso.

Pelo contrário: Araújo resolveu dobrar a aposta e no fim de semana lançou a narrativa segundo a qual a investida da senadora Kátia Abreu sobre ele seria uma reação à tentativa frustrada de fazer lobby pela chinesa Hawuei no leilão do 5G, que se aproxima.

Diante da reação indignada dos senadores, os bate-paus de Eduardo Bolsonaro ocuparam as redes sociais com ameaças de pedido de impeachment de vários deles. Um dos que encabeçaram a gritaria foi o deputado estadual por São Paulo Gil Diniz, que só faz o que Eduardo manda.

Além da pressão dos senadores sobre Araújo, uma tônica das últimas semanas foi o desembarque de setores das Forças Armadas e do PIB do apoio a Bolsonaro. A resposta, aqui, também veio na forma de ameaça de radicalização: a semana começa com deputados e ministros bolsonaristas enaltecendo o suposto heroísmo do soldado da PM da Bahia Weslei Soares, que foi morto por policiais do batalhão de operações especiais depois que fez vários disparos com um fuzil numa região turística de Salvador.

A narrativa irresponsável que passou a ser vendida pelos bolsonaristas, tendo à frente duas radicais que os deputados acharam por bem colocar à frente de comissões vitais para o funcionamento da Casa, Bia Kicis (CCJ) e Carla Zambeli (Meio Ambiente), foi a de que Soares estaria brigando pela liberdade dos baianos diante de restrições impositivas do governador Rui Costa, que é do PT. Foram seguidas pelo próprio Eduardo Bolsonaro e pelo ministro Ricardo Salles, que postou a patacoada em seus stories no Instagram. Também fez coro à tentativa de glorificar o PM, diante de um ato que configura na verdade terrorismo doméstico, o secretário de comunicação institucional (sic) do governo, Felipe Pedri, intimamente ligado aos filhos de Bolsonaro e a Filipe G. Martins.

Esse movimento nada tem de aleatório ou ingênuo: não é de hoje que o bolsonarismo mais radicalizado aposta na instrumentalização, com lavagem cerebral ideológica e o vale-tudo de acesso a armas e munições, da “base” das polícias militares.

Weslei Soares, com sua camuflagem e seu discurso raivoso que mistura conceitos, parece mostrar como esse “laboratório” tem potencial literalmente explosivo. Não se deve esquecer que, em 2019, o COF de Olavo de Carvalho, o guru por trás desses radicais bolsonaristas, promoveu cursos de doutrinação gratuitos para policiais.

Não vai dar certo se o Congresso continuar assistindo a isso com uma postura que alterna passividade e uma cobrança apenas protocolar. O mesmo vale para as demais instituições que ainda têm algum poder de conter a visível escalada do bolsonarismo rumo à radicalização, que aumenta de velocidade à medida que o presidente perde suporte na sociedade.

Essa escalada, combinada ao discurso de apelo ao proselitismo patriótico-religioso por parte de Bolsonaro, não vai resultar em boa coisa.

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