DILEMA DE BOLSONARO: MÉDICO OU MONSTRO? – JOSIAS DE SOUZA, BLOG NO UOL

A conversão da vacina anti-Covid em realidade no exterior levou Bolsonaro a viver um dilema do tipo Dr. Jekyll e Mr. Hyde —médico e mostro. Apenas 24 horas depois de repetir que não tomará vacina e exigirá um termo de responsabilidade dos brasileiros que quiserem se vacinar, Bolsonaro declarou no Planalto que o país vive um momento de “entendimento” e de “paz”. Esgrimindo um hipotético plano de vacinação, disse que “brevemente estaremos na normalidade.”

Até a assessoria de Bolsonaro deve estar confusa com esse negócio de separar os dois personagens. A saída talvez seja a utilização de broches. O broche do presidente do “entendimento”, adepto da vacinação, seria adornado com a letra “P”, de paz. O broche do Bolsonaro belicoso, que torce para que o Brasil deixe de ser “um país de maricas”, estamparia a letra “G”, de guerra.

No universo bolsonarista, não há coisas certas ou erradas. Há coisas que são toleradas e outras que pegam mal. Enquanto o brasileiro morria de Covid, a aversão de Bolsonaro aos imunizantes foi negligenciada. No instante em que as pessoas começaram a morrer por falta de vacina, o governo foi intimado pelas circunstâncias e pelo Supremo Tribunal Federal a exibir um plano nacional de vacinação.

A despeito de toda a pregação de Bolsonaro contra a vacina, o Datafolha informa que 73% dos maricas ainda desejam se vacinar. Daí a dupla personalidade sanitária do presidente. No essencial, o país continua no mesmo lugar. Ou, por outra, recuou no calendário. As vacinas que o governo diz ter adquirido —Oxford, Covax e Pfizer— ainda não estão no almoxarifado. A vacina que parece mais próxima da prateleira —CoronaVac— a ainda não foi comprada.

Em outubro, o presidente-monstro mandou rasgar o protocolo em que o Ministério da Saúde se comprometia a comprar 46 milhões de doses da “vacina chinesa do Doria”. Agora, o presidente-médico admite que seu governo anuncie a intenção de adquirir a “vachina” assim que a Anvisa liberar. Mas ainda não há menções a quantidades e cifras.


Quem não quiser fazer papel de bobo deve perceber que não há como deixar de tratar os dois Bolsonaros como um só. A soma dos personagens dá um presidente da República confuso, que tende a trocar a serenidade do “médico” pelas diatribes do monstro conforme a plateia. Para cerimônias oficiais, com a presença de governadores, broche do pacificador. Para os encontros com os devotos do cercadinho do Alvorada, broche do guerreiro. Para a historiografia, um presidente sem aptidão para presidir.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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