Discurso de inocência sobressai como o negacionismo de Lula – DIOGO SCHELP, BLOG NO UOL

“Lula Livre” não é a mesma coisa que “Lula Inocente”.

Ao contrário do que disse Lula em seu discurso no sindicato dos metalúrgicos em São Bernardo do Campo, nesta quarta-feira (10), o ministro Edson Fachin, do STF, não o absolveu ao determinar a anulação das condenações que ocorreram na Justiça Federal em Curitiba (PR).

Lula afirmou que Fachin, a quem agradeceu pela decisão tardia, “reconheceu que nunca teve crime cometido por mim”. Errado.

Na realidade, Fachin decidiu que os quatro processos que imputaram crimes a Lula não eram de competência da vara de Curitiba, onde atuava o ex-juiz Sergio Moro, e por isso devem começar do zero no Distrito Federal. Mas Fachin não julgou o mérito das acusações e nem anulou as provas.

Lula disse que foi “vítima da maior mentira jurídica contada em 500 anos de história” do Brasil. A frase remete ao bordão conhecido em seu período na presidência: “nunca antes na história desse país”.

Essa postura de quem acredita que nada do que foi feito antes no Brasil tinha qualquer valor, como se a nossa história tivesse começado com a chegada de Lula o poder, nos faz lembrar que foi justamente a empáfia política que permitiu o ambiente de certeza da impunidade que resultou no petrolão e em outros escândalos de corrupção de grandes proporções nos governos do PT.

Lula falou como candidato, apesar de não se apresentar como tal. “Me sinto jovem para brigar muito”, disse ele.

Prova desse posicionamento no tabuleiro para 2022 é o fato de que ele gastou mais palavras para criticar o governo Bolsonaro do que para comemorar a decisão do STF que o favoreceu.

Muitas de suas críticas, aliás, estão corretas, em especial no que diz respeito à gestão desastrosa de Bolsonaro e de seu ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, na pandemia.

Lula fez o que Bolsonaro demonstrou ser incapaz de fazer: apresentar solidariedade às vítimas da covid-19 e aos profissionais de saúde e reconhecer o empenho de governadores em tentar controlar o avanço do novo coronavírus.

E ao criticar Bolsonaro nesse tema, tratou de espezinhá-lo, praticamente chamando-o de terraplanista, ou seja, alguém que acredita que a terra é plana e, portanto, refuta o conhecimento científico.

Nada de surpreendente aqui. O desastre pandêmico de Bolsonaro é o ponto mais vulnerável de seu governo (e o que não falta são pontos vulneráveis).

Qualquer um que almeje disputar as eleições presidenciais do ano que vem terá que cutucar essa ferida. Os demais potenciais candidatos, de João Doria a Ciro Gomes, de Sergio Moro a Flavio Dino, de Luciano Huck a Luiz Henrique Mandetta, já o fazem.

Mas se o governo Bolsonaro nega os fatos relacionados à pandemia, Lula exerce outra forma de negacionismo: a recusa em admitir que a sua história pessoal e a de seu partido estão irremediavelmente ligadas a escândalos de corrupção.

Como realçou o relator dos processos da Lava Jato no Tribunal Regional Federal da 4ª Região, João Pedro Gebran Neto, as condenações de Lula que foram confirmadas nessa corte de segundo instância foram julgadas “com dedicação, cuidadoso estudo dos autos, acurado exame das provas licitamente obtidas, apreciação dos fatos imputados e dos direitos reivindicados pelas partes”.

O papel de mártir rende bem politicamente. Mas Lula Livre não é sinônimo de Lula Inocente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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