DNA revela como tráfico de escravizados criou ‘Áfricas em miniatura’ nas Américas – REINALDO JOSÉ LOPES = FOLHA

Pesquisa foi desenvolvida por cientistas do Brasil, EUA, Peru e Portugal

Entre os séculos 16 e 19, mais de 9 milhões de pessoas foram arrancadas de seus lares na África e forçadas a atravessar o Atlântico para trabalhar como escravas nas plantações, minas e cidades das Américas.

Apesar dos sofrimentos indizíveis que tiveram de enfrentar, muitos dos cativos deixaram suas marcas nos rostos e no DNA da população atual do continente, e um novo estudo deu passos importantes para elucidar justamente o legado genético dessa multidão de africanos.

Trata-se de um trabalho coordenado por pesquisadores da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), como Eduardo Tarazona-Santos e Mateus Gouveia, e que contou também com a participação de colegas de outras instituições no Brasil, nos EUA, no Peru e em Portugal.

Os resultados, que acabam de sair na revista científica Molecular Biology and Evolution, indicam que a política de misturar povos distintos para formar os grupos de escravizados acabaram criando “Áfricas em miniatura”, do ponto de vista genético, em cada região colonizada pelos europeus.

Para chegar a essa conclusão, o grupo da UFMG e seus colaboradores analisaram o DNA de 6.267 pessoas, amostra que inclui tanto descendentes de africanos na América do Norte, no Peru, na Colômbia e no Brasil quanto habitantes atuais da África, num arco que vai da Nigéria, no oeste do continente, ao Quênia, no leste.

Para cada uma dessas pessoas, os pesquisadores analisaram um conjunto de cerca de 500 mil SNPs (pronuncia-se “snips”), variantes de uma única “letra” química de DNA (lembre-se de que a totalidade do genoma no núcleo das células humanas contém algo como 3 bilhões de pares dessas “letras”).

Bibliotecas de SNPs como essas podem ser atribuídas, com considerável grau de confiabilidade, a populações de diferentes regiões do planeta, e o padrão de combinações dessas variantes também a ajuda a estimar o grau de miscigenação dos indivíduos estudados (caso, por exemplo, o conjunto de SNPs inclua “letras” típicas de uma região misturadas a outras mais comuns em áreas distantes, o que não era usual antes da Era das Navegações).

Com base nesse método, foi possível separar as contribuições africanas para o DNA dos povos da América atual em três grandes “fontes”, bem documentadas pelos registros sobre o tráfico escravista: ocidental, centro-ocidental e sul-oriental.

“Negros no Porão”, obra de Johann Moritz Rugendas do álbum “Viagem Pitoresca ao Brasil” (1835), que mostra o tráfico de escravos africanos. – Reprodução

As populações centro-ocidentais são, ao que tudo indica, as que mais contribuíram para os atuais descendentes de africanos (57% da ancestralidade no Nordeste brasileiro, por exemplo, proporção muito parecida com a dos americanos de origem africana). São grupos como os iorubás, cuja herança religiosa ainda marca o candomblé, e os nativos do Congo.

Já os grupos mais ligados ao sul e ao leste da África foram bem mais importantes no Sul e no Sudeste do Brasil (44% e 54% da ancestralidade africana nessas regiões, com o predomínio de escravizados oriundos de Angola e de Moçambique).

Apesar dessas variações geográficas, os dados genéticos também mostram que as diferenças entre as populações de descendentes de africanos de cada país do continente americano são relativamente pequenas se comparadas às que existem na África.

Ou seja: conforme o tráfico foi misturando grupos diferentes, cada um deles acabou preservando uma fatia substancial da diversidade do DNA africano. O mesmo processo que desenraizou esses povos acabou “congelando” um pedaço indelével de suas origens.

Reinaldo José Lopes

Jornalista especializado em biologia e arqueologia, autor de “1499: O Brasil Antes de Cabral”.

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