Documentário sobre Gorbachev revela a grande figura trágica do século 20 – JOÃO PEREIRA COUTINHO, FOLHA

A tirania da história, às vezes, é mais forte do que a vontade de um homem

Existem dois gigantes óbvios na história do século 20. O primeiro é Churchill. O segundo é Gorbachev. Se eu fosse Shakespeare, escolheria ambos para duas peças trágicas. Mas se apenas pudesse escolher um, ficaria com Gorbachev. Não há personalidade mais trágica na história desse século.

Essa, pelo menos, é a mensagem central do documentário “Encontrando Gorbachev”, da autoria de Werner Herzog e André Singer. Recomendo sem reservas.

Superficialmente, a obra é uma revisão da matéria conhecida: na década de 1980, liderar a União Soviética não dava saúde a ninguém. Depois da morte de Brezhnev, em 1982, Andropov aguentou dois anos no cargo. Morto Andropov, Chernenko aguentou um.

Essa sucessão de funerais é apresentada por Herzog e Singer com uma deliciosa cadência cómica —e sempre com a marcha fúnebre em looping.

Até surgir Gorbachev, o primeiro líder da URSS nascido depois da Revolução Bolchevique de 1917.

Cronologia da Revolução Russa

A czarina Maria Feodorovna e o czar Alexandre 3º num palácio em Copenhague em 1893; ele morreu no ano seguinte e passou o poder ao filho, Nicolau 2º

A czarina Maria Feodorovna e o czar Alexandre 3º num palácio em Copenhague em 1893; ele morreu no ano seguinte e passou o poder ao filho, Nicolau 2º Scanpix/Associated PressLeia Mais

Esse pormenor não é incidental. Sem carregar o patrimônio fossilizado do marxismo-leninismo, Gorbachev podia olhar para a União Soviética e fazer um balanço dos seus sucessos.

Os sucessos eram poucos —e essa é a primeira tragédia de Gorbachev: a intolerância perante a mentira, que se tornou ferina depois do desastre de Chernobyl.

Nada mais errado. “Eu queria mais socialismo!”, afirma o próprio em conversa com Werner Herzog. Mas como garantir uma sociedade mais justa quando a economia soviética era uma ruína?

Na explicação de William Taubman, um dos melhores biógrafos de Gorbachev, os satélites de Moscovo (Vietnã, Cuba, Coreia do Norte e leste da Europa) recebiam da pátria-mãe 17 bilhões de dólares em matérias-primas e outros produtos. Moscovo recebia entre 3,5 bilhões a 5 bilhões de dólares apenas de volta. O império soviético era um negócio caro e disfuncional. Ainda mais com uma guerra insana no Afeganistão.

Soldados em Moscou carregam faixa em apoio ao comunismo em foto de outubro de 1917
Confusão nas ruas de Petrogrado (São Petersburgo) na época da Revolução Russa
Foto de 1922 mostra os líderes soviéticos Lênin e Stálin nos arredores de Moscou. O primeiro voltou do exílio em 1917 e liderou a Revolução até 1924, quando morreu. Stálin assumiu o poder depois de uma disputa interna no Partido Comunista e liderou a URSS por três décadas --morreu em 1953
Trótski (o segundo a partir da direita), um dos fundadores do Exército Vermelho, perdeu a disputa interna no Partido Comunista para Stálin em 1924. Aos poucos foi afastado do poder, expulso do PC e exilado. Na foto, ele chega ao México, recebido por Frida Kahlo. Acusado de chefiar uma conspiração contra Stálin, ele morreria assassinado em 1940

Foto de 1945 mostra, à frente, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill, o presidente americano Franklin Roosevelt e Josef Stálin em conferência que discutiu a divisão política no pós-guerra
Já na Guerra Fria, Nikita Khruschev sucedeu Stálin (morto em 1953) na secretaria-geral do Partido Comunista. Na foto, de 1956, Khruschev (no púlpito) fala no Congresso do PC
Khruschev seria deposto em 1964, e Leonid Brejnev (à esq., na foto com o presidente americano Richard Nixon durante encontro na Casa Branca) assumiu o poder do PC
Na década de 1980, o Partido Comunista teve quatro secretários-gerais: Brejnev, que o dirigiu de 1964 a 1982, quando morreu; Iuri Andropov; Konstantin Tchernenko; e Mikhail Gorbatchov (na foto, abaixo à dir.)
Cena do documentário 'Encontrando Gorbachev'
Cena do documentário ‘Encontrando Gorbachev’ – Divulgação

Para um regime que, desde 1917, viveu e sobreviveu pela violência, isso era um pecado capital —e Gorbachev assume a falha quando fala de Boris Leltsin, o monstro que ele criou. “Se eu fosse como os outros líderes”, confessa Gorbachev, “Leltsin não teria chegado onde chegou”.

Mas a tragédia de Gorbachev não se limita ao seu pragmatismo; é preciso incluir também a sua aversão à violência.

“Mas eu nunca fui assim”, conclui ele.

Verdade. Não foi assim com Leltsin e não foi assim com todas as repúblicas socialistas do leste da Europa, quando começaram a seguirem os seus próprios caminhos.

No documentário, Herzog conversa com Miklós Németh, o último premiê comunista da Hungria e que recebeu de Gorbachev uma frase simples: “não haverá uma repetição de 1956”. O trecho faz referência à brutal repressão soviética em Budapeste para impedir que a Hungria abandonasse o Pacto de Varsóvia.

Enterrando a doutrina Brezhnev, que reservava para o Exército Vermelho o direito de interferir nos casos desviantes, Gorbachev fazia o que Ronald Reagan lhe pedira em discurso célebre: permitir que o muro de Berlim fosse derrubado e, pela secessão das repúblicas soviéticas, terminar com a União.

Para aqueles que viveram sob o comunismo e para todos os democratas liberais, Gorbachev é um herói. Mas ele próprio recusa o título e, na sua lápide, deseja apenas que esteja uma palavra: “Tentámos.”

É uma palavra romântica, digna de Lérmontov, o seu poeta preferido. Mas talvez a tentativa fracassada de conciliar a União Soviética com a democracia e a liberdade não seja culpa de Gorbachev.

Como se vê hoje na Rússia de Putin, a tirania da história, às vezes, é mais forte do que a vontade de um homem.

João Pereira Coutinho

Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa.

Gorbatchov (na foto de 1987, em ligação em um dos primeiros celulares da Nokia) foi o responsável pela abertura política e pela reestruturação econômica da URSS
Em 1991, Boris Ieltsin foi eleito presidente da Rússia. No mesmo ano, o Congresso dos Deputados do Povo aprovou a dissolução da União Soviética. Na foto, vencedora de vários prêmios, Ieltsin dança em show durante a campanha de 1996; ele ficou no poder até 1999
Ieltsin foi sucedido por Vladimir Putin, eleito pela primeira vez em 1999. Ex-oficial da KGB, ele tem se revezado nos cargos de presidente e primeiro-ministro desde então

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