Doria aguarda as águas de março – MIRIAM LEITÃO, GLOBO

O governador João Doria diz que pesquisas qualitativas mostram que quando a pandemia passar, e as pessoas voltarem à vida normal, seu esforço pela vacinação dos brasileiros será reconhecido. Hoje, nada do que Doria fez se transformou em intenção de voto e ele está focado em disputar as prévias do PSDB para ser candidato a presidente. Em entrevista de uma hora que me concedeu, Doria admite que há uma diferença entre o ex-presidente Lula e o presidente Bolsonaro, ainda que os defina como “dois extremos”.PUBLICIDADE

Eu havia perguntado se não haveria uma diferença entre os dois, já que Lula não ameaçou a democracia ao governar, mas Bolsonaro faz isso desde o primeiro dia:

— Eu acho que eles são dois extremos, mas reconheço que há diferenças bastante patentes, como você colocou, entre Lula e Bolsonaro. Isso não implica em desqualificar Lula no campo da extrema-esquerda. Bolsonaro está no campo da extrema-direita com muito mais danos à democracia. Mas eu acho que quem propõe o controle da mídia não é um governo de centro-esquerda, mas sim de extrema-esquerda. Já Bolsonaro hostiliza, agride e ofende a imprensa e os jornalistas.

Doria criticou o presidente da Câmara, Arthur Lira, pela proposta de mudar o ICMS dos combustíveis, por ser uma forma de “pregar no peito dos governadores” a culpa pelo aumento dos combustíveis. Ele afirma que a ideia será rejeitada.

— Essa é uma visão simplória e populista que o Palácio do Planalto transferiu a Arthur Lira para ser o porta-voz. É uma medida ineficaz apresentada como se pudesse ser adotada, e como se fosse eficiente. Ela não pode ser adotada porque os governadores movimentarão as suas bancadas e é flagrantemente ineficaz. O ICMS de São Paulo sobre combustíveis é o mesmo há décadas, incide da mesma forma em todos os produtos, e é assim em todos os estados, mas o governo quer pregar no peito dos governadores a culpa pelo aumento dos combustíveis, do gás de cozinha. Então essa circunstância (a proposta de Lira) para ele ( Bolsonaro) é muito fácil. É dizer: me livrei do problema, a culpa é dos governadores.

Segundo Doria, o que tem provocado o aumento dos combustíveis é a instabilidade do governo Bolsonaro:

— Nós vamos viver essa instabilidade até o fim do governo Bolsonaro, um governo instável economicamente, politicamente, emocionalmente.

Doria disse que caso seja eleito vai propor a privatização da Petrobras, com uma modelagem feita de forma a dividir a empresa e não transformar um monopólio estatal em um monopólio privado:

— Eles não conseguiram até agora vender nem a Eletrobras. Minha proposta é privatizar Petrobras, Banco do Brasil, Correios, Infraero, Valec. E fazer como eu fiz em São Paulo, diminuí o tamanho do Estado para investir mais nas áreas que são do Estado, como por exemplo educação. Minha proposta é multiplicar por dez os investimentos em educação. Em São Paulo nós multiplicamos o investimento em educação, havia 363 escolas em tempo integral e agora há 1.878 escolas em tempo integral, cinco vezes mais do que havia antes. Investimos R$ 7 bilhões em educação. Só em tablets para alunos e professores foram aplicados R$ 1 bilhão, além de computadores, sistemas, softwares, internet rápida.

Doria recusa o rótulo de político de direita. Diz que sequer é de centro-direita. Define-se como “de centro”. E diz que aposta na redução do tamanho do Estado, em áreas onde ele não deve estar, para aumentar o investimento social. Diz que foi isso que fez, por exemplo, com a reforma administrativa.

Neste momento São Paulo já está com 99,12% de adultos vacinados com a primeira dose e 60,02% com a vacinação completa. Ele diz que o governo Bolsonaro sabotou e sabota a coronavac, ao dizer agora que não comprará mais. Ele já vendeu lotes para o Piauí, Maranhão, Mato Grosso e Espírito Santo. E o governo paulista também comprou cinco milhões do Instituto Butantan para completar a vacinação. “Em novembro estaremos com o ciclo vacinal completo”, diz ele.

Sobre as prévias, ele diz não estar preocupado e se define como “filho das prévias”. Disputou as duas únicas que houve no PSDB. E ganhou. Ele aguarda março do ano que vem. Acha que é o momento em que o quadro eleitoral estará mais claro porque os “52% que hoje afirmam não querem nem Lula nem Bolsonaro” estarão fazendo suas definições.

Com Alvaro Gribel (de São Paulo)

Doria aguarda as águas de março – MIRIAM LEITÃO, GLOBO
Rolar para o topo