Duas livrarias e uma cidade – LEANDRO KARNAL, ESTADÃO

A cizânia era tão venenosa que o juiz decidiu conversar com os donos dos estabelecimentos

A cidade era famosa pela população ordeira e leitora. Na rua principal, duas livrarias alimentavam a avidez do povo de Santa Cruz com ideias impressas. Eram separadas por poucos metros e, talvez, por milhares de quilômetros. Explico-me.

A livraria “Cruzador Aurora” sempre apostou no discurso engajado. Colocou cartaz dizendo que ali não se admitia racismo ou misoginia! A trilha sonora interna tocava Violeta Parra. A cada semana, a vitrina anunciava uma promoção: “Compre seus autores aqui, 10% do lucro será dirigido para quilombolas”. Alunos de humanas e algumas ovelhas desgarradas das engenharias compravam e davam preferência por levar os livros em sacolas feitas por comunidades com materiais orgânicos. Todos os clientes recebiam a atenção especial de um grupo simpático de vendedoras, vendedores e “vendedorxs”. Uma severa política de cotas no RH privilegiava mulheres negras nas contratações. Transgêneros e imigrantes também encontravam abrigo trabalhista. O espaço tradicional era quase um soviet harmônico, uma república feliz no coração de uma Woodstock que nunca se encerrava.

A outra, oposta, era a livraria “Ordem e Progresso”. Livros bem encadernados, obras completas de Plínio Salgado, grandes romances clássicos, best-sellers de denúncias contra ONGs e contra a esquerda. Na entrada, em destaque, o cliente era apresentado ao Livro Negro do Comunismo, um libelo contra regimes vermelhos. Metros adiante, na livraria rival, exibia-se, com o mesmo destaque, O Livro Negro do Capitalismo.

Desejava adquirir algo sobre Von Mises e suas ideias econômicas? Sempre havia boas ofertas na “Ordem e Progresso”. Faltava-lhe algum volume de Marx ou Foucault? A rival era seu destino. As Veias Abertas da América Latina? Encabeçava a lista dos mais vendidos na rubra. Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano era avidamente consumido pela outra.

As duas ilhas conviviam quase sempre de forma tranquila. Tinham seu público. Uma não roubava clientes da outra. Viviam em dois planetas distintos, cada qual com seu sol, como o de Krypton era vermelho e o da Terra sempre seria amarelo.

A partir de 2013, a tensão entre as lojas aumentou. Por um gesto extraordinário de marketing, a “Aurora” (como era conhecida pelos fãs) conseguiu uma palestra de Judith Butler. Foi a declaração de guerra. Cartazes, acusações recíprocas, fake news, manifestações: os grupos elevaram o tom quase às vias de fato. A vingança veio um mês depois: a “Ordem e Progresso” (não tinha apelido porque seus leitores detestavam informalidades) convidou Roger Scruton, um ano antes do falecimento do britânico. A cenografia antípoda se repetiu. “Vai para Cuba, comunista safado” era jogado ao sol de outono. “Fascista lambedor de coturno”, vociferava o grupo oposto. 

A pequena cidade de Santa Cruz oscilava entre os dois núcleos comerciais. Famílias inteiras eram devastadas porque se descobria que uma parte comprava no reduto “conservador” e outra na “vanguarda dos povos”. Natais foram estragados. Grupos de WhatsApp eram feitos a partir da opção de compra. Quase toda família tinha um só com os parentes que frequentavam uma livraria e outro com os leitores que estavam na outra. Não se permitiam trânsfugas. Quem decidisse ler outra coisa ou dizer que amava Machado de Assis apenas, sem ideologias políticas, sem panfletos, era apupado como “isentão”!

A cizânia era tão venenosa que o juiz local decidiu convidar os donos dos estabelecimentos para uma conversa franca. Não era possível transformar a rua principal de Santa Cruz em uma fronteira armada da Guerra Fria. “Basta”, bradou dr. Sanderson Turlan. Aproveitou-se de uma queixa formal, decidiu assumir um papel moderador. Pediu a presença do delegado como testemunha para o choque de duas placas tectônicas bibliográficas.

No dia do encontro, com pontualidade de fazer corar um calvinista de Zurique, entrou um simpático senhor de meia-idade. A roupa e os modos anunciavam dinheiro sólido. “Sou o proprietário”, anunciou com voz de barítono. “De qual delas?”, perguntou o juiz sob olhar atento do delegado. “De ambas”, ele respondeu com serenidade. Houve prolongado silêncio na sala de móveis austeros. “Como assim?”, disseram, quase ao mesmo tempo, os dois. Estavam atônitos! O desconhecido arrumou os óculos e narrou que o mercado estava polarizado. Apostar em um segmento era invalidar o outro. Assim, com promoções aparentemente rivais, ele conseguia atender as duas torcidas e manter um excelente capital de giro. Havia momentos (como no governo Lula) em que uma livraria “bombava”. Em outros, como nos anos Bolsonaro, fortalecia-se o plantel da outra. “Nunca sabemos quem estará no poder, assim, decidimos apostar nos dois setores.” “Qual seu nome, meu senhor?”, perguntou o delegado. Sou Joseph Itadesco, disse o homem pigarreando em um lenço de tons alaranjados e com borda vermelha. Nunca tivera partido, afirmava. Era a favor do país.

A audiência informal foi encerrada. Não havia crime em ter duas lojas e os impostos estavam em dia. O zeloso empreendedor agradeceu e se retirou. Já na porta, voltou-se e anunciou uma terceira livraria: a “Rosa Cálida”. Ela venderia apenas livros de autoajuda e romances espíritas e declararia, desde a porta, sua absoluta neutralidade política. Por que brigar se você pode optar agora por três projetos distintos? Esperança tem CNPJ? 

*É HISTORIADOR E ESCRITOR, AUTOR DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’, ENTRE OUTROS

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