DUELO DE TITÃS – RUY CASTRO – FOLHA

Foi Kirk Douglas quem deu a Stanley Kubrick liberdade para ser um gênio

Kirk Douglas morreu nesta quinta (6), em Los Angeles, aos 103 anos, e os obituários levaram a crer que seu apogeu consistiu de dois filmes, “Glória Feita de Sangue” (1958) e “Spartacus” (1960), ambos dirigidos por Stanley Kubrick. É como se Douglas devesse sua posteridade a Kubrick —e, de fato, nenhum diretor morto tem hoje o peso de Kubrick. Mas a realidade é outra. Os dois filmes foram projetos de Kirk Douglas —e Kubrick, apenas o jovem de menos de 30 anos em quem ele apostou e que contratou para dirigi-los. Kubrick, portanto, era seu empregado.

Nem podia ser diferente. Em 1960, Douglas já tinha 44 anos e, entre os filmes que estrelara, estavam o extraordinário “A Montanha dos Sete Abutres” (1951), de Billy Wilder; “Assim Estava Escrito” (1952), de Vincente Minnelli; “Ulisses” (1954), de Mario Camerini; “Sede de Viver” (1956), também de Minnelli; “Sem Lei, Sem Alma” (1957), de John Sturges; “Duelo de Titãs” (1959), também de Sturges; e “O Nono Mandamento” (1959), de Richard Quine. Que cartel!

Douglas foi um dos primeiros atores a se tornarem produtores independentes. Isso lhe permitia decidir o que queria filmar, bancar tudo —elenco, roteirista, diretor— e até escolher o estúdio que quisesse como sócio. Os dois filmes com Kubrick estavam nesse caso, sendo que, em “Spartacus”, Kubrick só entrou porque substituiu Anthony Mann, demitido por Douglas com uma semana de filmagem.

Tudo bem. “Glória Feita de Sangue” talvez seja o maior filme de guerra já feito, e “Spartacus”, o melhor superespetáculo —mas só porque Douglas deu a Kubrick liberdade para ser um gênio. 

O filme favorito de Kirk, no entanto, não era nenhum desses, e sim “Sua Última Façanha” (1962), de David Miller. Também gosto muito, mas minha paixão secreta é pelo noir jazzístico “Êxito Fugaz” (1950), de Michael Curtiz, com ele, a doce Doris Day e uma fatal Lauren Bacall.

O ator Kirk Douglas em cena de "Spartacus"
Kirk Douglas em cena de “Spartacus” – Reprodução

Ruy Castro

Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues.

DUELO DE TITÃS – RUY CASTRO – FOLHA
Rolar para o topo