Enquanto Argentina chora por Maradona, nós esquecemos de Mané Garrincha – RICARDO KOTSCHO, BLOG NO UOL

Enquanto Argentina chora por Maradona, nós esquecemos de Mané Garrincha
Garrincha foi o Maradona brasileiro, dentro e fora do campo, até a morte. Mas quem se lembra do Mané? –

Vendo e revendo os jogos e os gols de Maradona nas justas e comoventes homenagens que lhe foram prestadas em todo o mundo, no dia da sua morte, eu me lembrei de Manuel Francisco dos Santos, chamado de Garrincha e rebatizado por Nelson Rodrigues como o “anjo das pernas tortas”.

Garrincha não era um anjo, longe disso, mas Maradona foi “Diós” para os argentinos, como o chamavam na intimidade.

Os dois grudavam a bola nos pés e tornavam seus marcadores invisíveis, passavam no meio deles como se chupassem um picolé e só tinham um destino: o gol.

Na época em que atuaram, Pelé foi eleito o “Atleta do Século”, mas ninguém encantou mais as arquibancadas do mundo do que esses dois moleques que não ficaram adultos e nem atletas eram, na acepção da palavra.

Ao contrário de Pelé, eles não gostavam de treinar, não se cuidavam fora de campo, não respeitavam esquemas táticos, queriam apenas se divertir e divertir os outros.

Eram atarracados, com caras de índio, ousados, insolentes, fora dos padrões. Eram artistas, malabaristas com a bola, no grande circo do futebol.

Depois da conquista da nossa primeira Copa do Mundo, na Suécia, em 1958, jogo que ouvi pelo rádio, Garrincha foi perguntar ao técnico Vicente Feola:

“Já acabou? Não vai ter segundo turno?”.

Nunca mais veremos nada parecido, os seus dribles desconcertantes, sua alegria genuína de jogar bola por prazer, como se participassem de uma pelada nos bairros humildes onde foram criados (Garrincha em Pau Grande, distrito de Magé, no Rio, e Maradona na Villa Fiorito, nas franjas de Buenos Aires).

Foram as derradeiras estrelas de um futebol romântico, de amor à camisa, antes que o futebol virasse apenas um grande negócio.

Mesmo assim, os dois sozinhos venceram duas Copas do Mundo para seus países: Garrincha, em 1962, no Chile; Maradona, em 1986, no México, onde eu estava pela Folha e vi o Brasil ser eliminado pela França, e a Argentina se sagrar campeã contra a Alemanha Ocidental.

Foi lá que Maradona fez aquele gol de mão contra a Inglaterra e depois atravessou a defesa inglesa inteira sem piedade, para fazer o mais belo gol da história das copas.

Garrincha fez até gol de cabeça no Chile, pintou e bordou, carregou a seleção nas costas após a contusão de Pelé.

Tão semelhantes, dentro e fora de campo, até a morte trágica antes da hora, pelos excessos que cometeram em vida, bebendo de tudo, como se não houvesse amanhã, Maradona, aos 60 anos, foi velado hoje na Casa Rosada pelo presidente da República e por uma multidão, e provocou uma comoção na Argentina, enquanto Garrincha, a “Alegria do Povo”, morreu solitário, aos 49 anos, em 1983, e foi esquecido por nós. Ninguém mais fala deste gênio o futebol mundial.

Fui dormir ontem e acordei hoje pensando nele. Garrincha foi esquecido bem antes de morrer, na miséria, sem direito a homenagens.


Em agosto de 1979, recebi de Mino Carta, que estava preparando o lançamento do Jornal da República, a tarefa de localizar Garrincha, que tinha sumido do mapa, e estaria internado em alguma clínica no interior do estado do Rio, para se tratar de mais uma crise de alcoolismo.

No número 1 do Jornal da República, sob o título “A vida torta de Mané Garrincha”, contei como o encontrei:

“Sem muitas esperanças de falar com ele — “O Mané não está dizendo coisa com coisa”, me desanimaram no Rio — fui encontrá-lo na velha colônia de férias do Ministério da Fazenda, em Paulo de Frontin, pequena cidade serrana (…).

Antes que lhe fizesse qualquer pergunta, a caminho do imenso salão de refeições da colônia, onde passamos sentados o restante da tarde, recolhendo fragmentos da sua vida, Garrincha foi logo dizendo: “Agora, não tenho mais nada. Mas passei um susto danado. Foi aquela maldita pimenta… Eu estava pensando que era herói, comendo aquela danada de uma pimenta… Não sou herói mais não…”

Para me provar que estava curado, contra todas as evidências, pois mal conseguia andar em linha reta, Garrincha garantiu que, já no domingo seguinte, iria voltar a campo com a equipe do Milionários Futebol Clube, formada por antigos ídolos do futebol brasileiro, que ganhavam alguns trocados jogando contra times de várzea nos fins de semana.

Achei que ele estava delirando quando me desafiou a encontrá-lo no sábado, em frente ao Hotel Danúbio, em São Paulo, onde pegariam o ônibus para Pirapozinho, pequena cidade da região de Presidente Prudente (SP).

Pois não é que, na hora marcada, ele apareceu mesmo, sacolinha na mão, cheio de alegria por reencontrar os amigos?

“Não te falei que vinha, gente boa?”

Como Garrincha conseguiu sair da colônia, até hoje não sei. Sei apenas que, mesmo tendo tomado alguns conhaques no caminho, no dia seguinte ele entrou em campo. E a foto de Solano José saiu na capa do jornal, acompanhada de um pequeno texto:

“Pirapozinho, 26 — URGENTE — Apareceu aqui hoje, nas barrancas do Paranapanema, um cidadão de nome Manuel Francisco dos Santos, dizendo-se Mané Garrinha. A notícia de sua presença colocou em polvorosa esta pequena cidade de 30 mil habitantes.

“Mas ele não está doente no Rio?” perguntavam-se as pessoas”

Hospedou-se na pensão do Morais, junto com a equipe. Ganhou buquês de flores, placa de prata e beijo das moças bonitas no Estádio Municipal.

O juiz apita, Garrincha com a bola. O lateral esquerdo, Antonio Carlos, 25 anos, o “Bunda Baixa”, vai em cima dele. Garrincha faz que vai, mas não vai, a torcida dá risada.

Era ele mesmo, Mané Garrincha em pessoa, não havia mais duvidas. Viajou 1.100 quilômetros, oito horas e meia de ônibus, para jogar 45 minutos e ganhar 6 mil cruzeiros de cachê. Saiu de campo suado, sujo e feliz”.


Foi a última aparição de Mané Garrincha nos gramados. Eu nunca vou esquecer dele.

Acho que Garrincha era o Maradona brasileiro, não Pelé, que era de outro mundo.

Vida que segue.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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