Está todo mundo exausto – MARILIZ PEREIRA JORGE, FOLHA

Está todo mundo exausto
Tudo tem custado mais esforço mental e físico nesta pandemia

Já acordo cansada. Às vezes, nem quero acordar. Apenas checo a hora e se não tiver um compromisso, apenas viro para o outro lado, abraço o travesseiro e volto para o lugar em que os pesadelos não são reais.

Não interessa quantas horas tenha dormido. Se venha de um fim de semana tranquilo ou se o trabalho não tenha exigido muito, o que é raro. Tudo tem custado mais esforço mental e físico. Estou sempre exausta, com os ombros curvados, a lombar que parece moída num espremedor.

Ao meio-dia, o noticiário tem o efeito de um tanque. Pude me atualizar sobre a Covid, sobre as férias eternas do presidente. Soube que membros da comitiva do governo que esteve no Qatar ganharam presentes da Hublot e da Cartier, em valores que vão até R$ 53 mil. Não é mamata, é falta de ética mesmo. Mas Bolsonaro zerou os impostos de importação. De jet-ski, balão e dirigível. Veja pelo lado bom: não há.

E ainda querem que sejamos melhores depois de “tudo isso”. Tudo isso era a pandemia + Bolsonaro. O que já era muito. Ninguém tinha combinado que uma ameaça nuclear viria de brinde nesse combo. Seremos melhores depois desse atropelo seguido de vida? Claro que não. Seremos apenas mais cansados. E procrastinadores.

Tenho deixado para amanhã tudo que preciso fazer agora. A única coisa que não adio é o encontro com o travesseiro de 500 contos que faz muito mais do que prometeu. Acabou com minha dor no pescoço e me proporciona sonhos melhores do que os cogumelos da Natureza Divina.

Virei a tarada das roupas de cama e escrava dos algoritmos. Jamais imaginei que houvesse tanta oferta, nem que eu precisasse desesperadamente de um duvet. É só um edredom, mas pelo nome achei que era mais macio. Quando reclamo do valor do cartão de crédito, meu marido pergunta com o que gastei tanto. Com a minha paz.

A Covid não ajuda. O olfato até que voltou, apesar de hortelã, alecrim e manjericão terem praticamente o mesmo cheiro. A cerveja também está diferente, mas não vou deixar que levem mais essa alegria da vida. O gosto não é nada familiar, mas talvez seja porque as cervejas não sejam mais as mesmas. O que não tem jeito é o cansaço. Covid? Idade? Depressão? Chá de cogumelo?

Está todo mundo exausto – MARILIZ PEREIRA JORGE, FOLHA
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