Este governo é como o vírus: vai passar – CLAUDIA TAJES, FOLHA

Depois que tudo passar, espera-se que Bolsonaro ocupe não mais do que um parágrafo nos livros de história

Depois que tudo passar, espera-se que Bolsonaro ocupe não mais do que um parágrafo nos livros de história, menos ainda, se possível, um espaço compatível com a sua pequenez de político e de homem.

Mas uma coisa não dá para negar: ele criou um novo parâmetro. A partir de agora, nenhum presidente eleito poderá ser pior, seja quem for —aí descontada a caterva que lhe serve de claque, papagaios de pirata sem brilho algum, nem o da reluzente ignorância que é a característica maior de seu chefe supremo.

Depois que tudo passar, por mais que o futuro presidente tenha seus dias de maus bofes, agindo por vaidade e burrice —combinação explosiva—, fazendo declarações estapafúrdias e espalhando mentiras, dificilmente ele será tão nocivo ao povo e ao país quanto Bolsonaro, que consegue a proeza de fazer tudo isso no mesmo dia. No mesmo turno, até. Quando não na mesma fala.

Ilustração mostra ao fundo camisa do brasil com o número 17 e na frente escrito Brasil com dezenas de lapides
Cynthia Bonacossa

Depois que tudo passar, ninguém terá mais de ler todas as colunas de todos os colunistas falando do “despresidente” em todas as edições. Não precisará mais ver o “e daí?” em todas as manchetes. Nem aguentar as fotos daquele esgar pavoroso que ele ostenta a título de sorriso, seja dando tiros para se divertir em meio à mortandade, seja apertando a mão de seus desmiolados apoiadores. Depois que tudo passar, “bolsonaro” (com caixa baixa) vai ser apenas um adjetivo nas palavras cruzadas. Ignóbil com nove letras.

Depois que tudo passar, o Brasil vai levar muitos anos, quem sabe décadas, para superar a destruição desses longos dias “bolsonaros”. Vamos contar aos nossos netos sobre um déspota nada esclarecido que, junto com um bando de energúmenos, fez o que pôde para acabar com a educação, a cultura, a saúde, o meio ambiente, a justiça. Ah, mas pelo menos a economia era pujante. Era nada, inocente.

Quando entregar um país destroçado, o desalumiado vai botar a culpa do estrago na pandemia, nos governadores, nos prefeitos, no PT, no Chico Buarque, no aposentado, na professora, nos jornalistas, nos comunistas, nas feministas, nas bichas. Uma vez delirante, delirante até o fim.

Depois que tudo passar, que algum designer redesenhe urgente a camisa da seleção brasileira. Que, ao menos enquanto a ferida não cicatrizar, o primeiro uniforme troque o verde e amarelo que foi usurpado pelo azul, rosa, laranja, preto, branco. Sendo cor de burro quando foge, dá para vestir com orgulho novamente.

Depois que tudo passar.

Claudia Tajes

Escritora e roteirista, tem 11 livros publicados. Autora de “Macha”.


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