EUGENIA DE REBANHO – ATILA IAMARINO, FOLHA

Expor os mais saudáveis ao vírus é uma ideia perversa que aceita que só os mais fracos padecem e podem morrer

As estações mudaram e a pandemia se inverteu. No Brasil, casos de Covid caem aos poucos, apesar do relaxamento de medidas sanitárias. Já a Europa enfrenta uma nova onda. Portugal decretou calamidade. A França tem toque de recolher em Paris. A Espanha impôs estado de emergência em Madri. Itália e Alemanha voltaram a proibir grandes aglomerações. E a República Tcheca, que em julho fez uma festa de despedida à pandemia sem máscaras e com aglomeração, em outubro planeja um hospital de campanha por falta de leitos. Até os EUA têm casos e mortes subindo, sem terem passado por uma baixa no verão.

Com essa volta vem o desgaste social e econômico. Depois dos começo do ano sacrificante, a pandemia persiste. E aumentar restrições significa piorar a economia em muitos países que já estão prejudicados, uma conjunção de fatores perfeita para o movimento negacionista ganhar força e voltar a promover a noção perigosa de imunidade coletiva.

Já passamos por várias fases do negacionismo científico. O descrédito de “é só uma gripe” ou “lockdown e máscaras não funcionam”. A falsa dicotomia entre saúde e economia, que o próprio Fundo Monetário Internacional destrói quando mostra que países que agiram mais cedo para conter o vírus recuperam antes a economia. As saídas milagrosas como a cloroquina, que perde protagonismo.

Agora começa o movimento de especialistas com uma opinião sob medida. A indústria do tabaco tinha especialistas que pediam mais provas de que cigarro causa câncer. A indústria do petróleo tem especialistas que negam o aquecimento. Agora temos os especialistas que defendem que jovens voltem à ativa, contraiam Covid e se imunizem “para proteger os outros”, com direto a carta repercutida pela imprensa.

O argumento seria de que a economia e as pessoas não aguentam mais e é melhor que os mais saudáveis se curem para proteger os demais, mas ele esconde algumas verdades inconvenientes. O vírus não fica contido entre saudáveis. Tanto no começo do ano quanto agora, vimos jovens contraindo o vírus por circularem mais e, em seguida, idosos adoecendo e morrendo, pagando o preço por quem saiu.

O argumento de que os saudáveis podem pegar o vírus é a vitrine de uma ideia perversa. A noção de que quem sofre com Covid “já não era saudável”. Que só fracos padecem. Quem mais morre de Covid são idosos, pessoas com diabetes, complicações cardíacas e outros problemas de saúde que muitas vezes são gerados por condições sociais. No Brasil, indígenas foram muito mais atingidos, seguidos de pardos e negros. Até na Suécia idosos e imigrantes somalis foram os que mais morreram.

Quem defende que os saudáveis se curem implicitamente aceita que “mais doentes” podem morrer. Em rebanhos animais, quando uma infecção passa graças à imunidade coletiva, os animais em pior condição de saúde morrem.

Promover que as pessoas se exponham e se curem é promover a seleção dos mais saudáveis. Entre humanos, a mentalidade de selecionar os mais bem nascidos (em termos econômicos ou de saúde) tem o nome de eugenia. E na Covid ainda é uma eugenia burra porque, mesmo entre os mais jovens e os de menor risco que se curam, corações, rins, pulmões, pâncreas e outros órgãos podem continuar comprometidos por meses ou até mais.

Ou seja, se os mais saudáveis contraírem o vírus e se curarem, além de matarmos aqueles com pré-condições, terminaremos com mais doentes com diabetes, problemas cardíacos e pulmonares, dessa vez causados pela Covid.

Atila Iamarino
Doutor em ciências pela USP, fez pesquisa na Universidade de Yale. É divulgador científico no YouTube em seu canal pessoal e no Nerdologia

EUGENIA DE REBANHO – ATILA IAMARINO, FOLHA
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