Fake news podem matar – ASCANIO SELEME, O GLOBO

Ao longo da história houve diversos casos que foram emblemas do perigo que notícias falsas representam para as instituições, a política e a vida humana

Não é de agora que corações e consciências são contaminados por fake news. Hoje, a contaminação é mais rápida, quase instantânea, em razão da internet e das redes sociais. Mas ao longo da história houve diversos casos que foram emblemas do perigo que notícias falsas representam para as instituições, a política e a vida humana. Sobretudo se elas forem patrocinadas pelo Estado. Vale destacar como se empreendeu uma das primeiras fake news brasileiras, no final do século 19, e que se encarregou de construir uma imagem falsa de Antônio Conselheiro, quais os seus objetivos e quem patrocinava sua pregação mística em Canudos. O resultado foi uma guerra de três anos com quatro expedições armadas que deixaram cerca de 25 mil mortos.

Antônio Conselheiro era um homem desiludido que vagou pelos sertões do Nordeste por 25 anos, desde que flagrou sua mulher o traindo com um sargento da força pública. Ao longo de sua peregrinação foi ganhando notoriedade como curandeiro e pastor. Em 1893, ele se estabeleceu no Arraial de Canudos, lugarejo baiano quase inabitado. Com sua presença, a vila cresceu a ponto de ter mais de cinco mil casas de taipa na data da sua capitulação. Ele declarou o local independente e o batizou de Belo Monte. Sua pregação contra a República, instalada no Brasil quatro anos antes, se dava porque o novo regime voltava suas costas para o interior do Brasil, de onde apenas recolhia impostos.

Conselheiro transformou-se num inimigo a ser batido. Em seu território no sertão da Bahia, os poderes constituídos não entravam, e a pregação anti-República gerou um pavor de que poderia crescer e se espalhar, dada a sua capacidade de arregimentar pessoas, sobretudo os mais pobres e os abandonados. Para convencer os cidadãos que viviam no Rio, em São Paulo e outras grandes cidades, os adeptos do então presidente Floriano Peixoto passaram a difundir a informação de que Antônio Conselheiro era monarquista, e Canudos estava sendo armada e financiada pela Inglaterra. Uma mentira deslavada.

O resultado dessa fake news foi uma grande adesão à República, contra os monarquistas, contra Conselheiro e todos os que fossem apontados como simpáticos à sua causa. O fracasso das três primeiras incursões armadas a Canudos insuflou ainda mais as pessoas. A mentira de que os monarquistas eram ligados a Conselheiro gerou quebra-quebras. Monarquistas eram perseguidos e alguns foram mortos, como o dono do jornal “Gazeta da Tarde”, Gentil de Castro. Acusado pelos jacobinistas florianistas, partidários de Floriano Peixoto, de ter mandado armas e dinheiro para Conselheiro, Gentil foi assassinado, seu jornal empastelado e sua casa apedrejada.

Euclides da Cunha provaria em “Os Sertões” que Conselheiro e seus seguidores não passavam de um bando de miseráveis famintos. Nunca foram e jamais seriam conspiradores monarquistas. Nenhuma libra britânica foi enviada a Canudos. Soube-se também que Gentil de Castro nunca teve qualquer contato ou ligação com Antônio Conselheiro e muito menos mandou armas ou dinheiro para Canudos. Ele era um monarquista, sim, mas dialogava civilizadamente com republicanos, pessoalmente ou através de artigos publicados em seus jornais. Mario Vargas Llosa, em “A Guerra do Fim do Mundo”, sobre Canudos, diz que “a mentira repetida dia e noite vira verdade”.

Conto outra

Outra fake news histórica foi patrocinada pelo governo dos Estados Unidos após o atentado de 11 de setembro de 2001. Para poder invadir o Iraque e desbaratar a Al Qaeda, os EUA sustentaram com dados falsos ou forjados que Saddam Hussein fabricava armas químicas e que poderia utilizá-las em território americano. Em 2003, as forças armadas de uma coalizão de países capitaneados por George W. Bush bombardearam e depois invadiram o Iraque. O secretário de Estado americano da época, general Colin Powell, hoje arrepende-se por ter endossado a mentira que levou à guerra e à morte de 400 mil civis desde a invasão até a retirada das tropas americanas, em 2011.

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