Fala de Moro é peça de acusação grave contra Bolsonaro – NESTOR RABELLO – VEJA.COM

Tentativa de aparelhamento da PF

Por Nestor Rabello – 25 abr 2020, 10h00

O superintendente da Polícia Federal no Paraná, Mauricio Valeixo, participa de coletiva de imprensa em Curitiba (PR), após ser deflagrada a 3ª fase da Operação Carne Fraca - 05/03/2018
Marcelo Valeixo, o pivô do rompimento Vagner Rosário/VEJA.com

A demissão do agora ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, caiu como uma bomba em Brasília nessa sexta-feira (24) e parece ter selado o destino do presidente Jair Bolsonaro – ou à queda ou a um papel decorativo no meio de seu segundo ano de mandato.

As explicações de Moro para a sua saída compõem uma peça de acusação com delitos graves, com origem na exoneração do chefe da Polícia Federal Maurício Valeixo.

O presidente figura nesse conjunto de revelações como patrocinador de uma operação para lhe permitir influenciar em investigações da PF que podem incriminar seus filhos Flávio, com o caso da rachadinha, e Carlos Bolsonaro, supostamente envolvido em esquema de ataques a autoridades e disseminação de Fake News.

“O presidente me disse mais de uma vez que queria ter uma pessoa do contato pessoal dele, que ele pudesse ligar, colher informações, relatórios de inteligência”, disse o ex-ministro, em pronunciamento mais cedo.

Moro, que largou a magistratura para fazer parte do governo, afirmou também não ter assinado a demissão de Valeixo, e que o mesmo não teria pedido demissão, o que desmente os termos da publicação no Diário Oficial da União, que informa uma exoneração “a pedido”.

As implicações de demitir Sergio Moro sempre foram claras. Bolsonaro, por temer um concorrente eleitoral, já havia reduzido em muito seu espaço na Esplanada dos Ministérios. Mas, agora, sugere se tratar de um ato de desespero por parte do presidente.

Ou seja, não há mais como debitar as suspeitas relativas ao comportamento presidencial a um noticiário supostamente parcial e de oposição.

Implicações políticas

É sabido que Bolsonaro gosta de agir em contexto de crise, seja institucional, seja provocada por seu próprio governo. Porém, a crise aberta nesta manhã se apresenta maior que sua capacidade de administrá-la.

Será difícil para o governo encontrar uma narrativa que se sobreponha às acusações de Moro. E mesmo que a tente, Bolsonaro terá um grande desafio para se restabelecer politicamente.

Fisiologismo

Com a queda de Moro, a estratégia para conquistar parte do Centrão, reduzir o poder de Rodrigo Maia e cacifar um aliado para o comando da Câmara dos Deputados fica enfraquecida e pode ir por água abaixo.

Não há mais confiança em Bolsonaro. Políticos observam que, se o presidente não hesita em colocar no fogo até mesmo os seus, o que dirá dos congressistas.

Assim, a temporada de fritura da gestão Bolsonaro começa já em temperatura alta, com movimentos para criação de CPI e convocação de Moro para prestar esclarecimentos ao Congresso.

Guerra institucional

Se no episódio da manifestação do último domingo a reação das instituições era limitada, agora eventuais respostas institucionais dos demais Poderes podem ganhar mais musculatura.

Para o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, há a oportunidade de retomar sua força política, que estava sob ataque do governo.

Mais importante que o pronunciamento de Bolsonaro, às 17 horas, serão os próximos movimentos de Rodrigo Maia e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre.

Nestor Rabello. Formado em jornalismo pelo Centro Universitário de Brasília (UniCeub), foi repórter da agência Reuters e Agência CMA. Participou de coberturas importantes, como as eleições de 2014 e o processo de impeachment de Dilma Rousseff, sempre em tempo real. Trabalhou em agências de comunicação digital, com foco no atendimento à Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República. Foi repórter de economia no Poder360.

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