Famílias reconstituídas – VERA IACONELLI, FOLHA

Famílias reconstituídas
Nada se compara à trabalheira afetiva que aguarda um casal com filhos se separando

Sabemos como a separação conjugal causa sofrimento homérico para uns e alívio inconfesso para outros –geralmente os dois afetos se alternam–, mas nada se compara à trabalheira afetiva que aguarda um casal com filhos se separando.

Para os filhos, além das perdas e adaptações, cabe entender porque aquele que me servia de modelo não serve mais aos olhos do outro. Se me pareço com pai/mãe e eles não se gostam mais, será que gostarão de mim? Se o amor entre pai e mãe acaba, quem me garante que entre pais e filhos não acabe também? “Você é igual seu pai/mãe” é um elogio ou uma crítica? O amor nunca é fácil, pois é feito de desencontros, mas talvez valha ficar atento às dificuldades inerentes a determinadas situações.

A volta ao mercado sexual/amoroso com filhos é muito diferente entre os gêneros. O filósofo Paul B. Preciado, em “Testo Junkie” (Edições N-1, 2018), chega a apresentar em números essa diferença, revelando como mulheres cis heterossexuais com filhos são muito menos valorizadas do que homens com a mesma idade e condição (exceto entre lésbicas).

Passado o tempo do luto, quem jurava que nunca mais amaria, casaria ou teria filhos pode se ver fazendo as três coisas numa tacada só. Havendo filhos das relações anteriores, as novas famílias serão chamadas de reconstituídas.

Casais costumam ter divergências na educação dos filhos, mas é de se esperar que pai e mãe comunguem do mesmo amor por eles. Já no caso de madrastas e padrastos, o amor –e se não der, pelo menos o respeito mútuo– é uma conquista diária atravessada pelo ruído das competições imaginárias revelando o grau de maturidade dos envolvidos. Espera-se que seja maior nos adultos, mas nem sempre é o caso.

Nas famílias reconstituídas, a tensão entre a lealdade aos filhos e ao companheiro/a pode ser central, mesmo quando aparece travestida de disputa financeira (quem paga o quê), de responsabilidade (quem faz o quê) ou afinidade (quem é o quê). São disputas que aparecem nas famílias em geral, mas acrescidas da frouxidão dos laços afetivos com a prole de parte a parte.

O desprezo ou intolerância pelo/a filho/a do companheiro/a é uma queixa comum nessas famílias e atua como um ataque certeiro ao narcisismo de pais/mães. Se é verdade que “quem beija meu filho adoça minha boca”, fica fácil presumir o gosto de fel diante da desaprovação constante ou de descuidos.

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O dilema entre amante e filhos coloca o companheiro/a na posição angustiante –e por vezes, enlouquecedora– de ter que escolher entre a vida amorosa arduamente refeita e a prole. A escolha pelos filhos, parte mais frágil da equação, embora pareça óbvia, produz ressentimentos, principalmente quando eles assumem sua própria vida amorosa, bem longe dos pais. Preterir os filhos, por sua vez, compromete a relação do casal, quando uma das atuações mais narcisicamente investidas –paternidade/maternidade– é rejeitada.

A família, que une uns por amor e outros por imposição, quando bem cuidada, deveria servir de modelo do que desejamos para o futuro de uma sociedade. Vivemos tempos nos quais uma pessoa é morta por torcer por um time ou partido diferente. Embora sejam exemplos radicais, alguém descarta a participação da família na criação desse tipo de violência?

Que outra razão justificaria a ideia de família hoje que não a de formarmos sujeitos mais decentes? Como fazê-lo se não cultivando o diálogo e o respeito, uma vez que o amor é sempre contingencial?

Famílias reconstituídas – VERA IACONELLI, FOLHA
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