Futebol dá e tira dos seus jogadores com a mesma mão – ROBSON MORELLI, ESTADÃO

Futebol dá e tira dos seus jogadores com a mesma mão
Jô não queria mais. Trocou o futebol pela diversão plena que nunca teve nos anos de carreira

Quando tentava crescer no terrão do Parque São Jorge, onde os garotos da base do Corinthians trabalhavam e sonhavam com o estrelato, acompanhado do seu pai, que conheci, Jô sabia que o futebol dava e tirava com a mesma mão. A fama que ele conquistou com o seu suor e dedicação ninguém tira dele. Jô ganhou espaço, realizou um sonho, mudou os números da sua conta corrente e ajudou a família fazendo o que se esperava dele. Entre uma condição e outra, a de menino e atleta profissional, houve uma vida de dedicação.

Mas quando Jô sai desse caminho, ele também perde o respeito que o futebol sempre teve com ele. Não é somente fazer gols e festejar vitórias e conquistas. Há obrigações.

Jô deixa o Corinthians pela porta dos fundos porque não queria mais cumprir com sua parte do combinado: treinar, respeitar o clube e os companheiros, acordar cedo, se dedicar todos os dias. Todo jogador sabe que essa dedicação só termina na aposentadoria. Não há outro cenário para quem depende do corpo para trabalhar. Jô, aos 35 anos, jogou a toalha. Cansou das cobranças, das horas dedicadas ao futebol, dos treinos, das concentrações, da torcida.

A rescisão de contrato, desse ponto de vista, era a única saída. Ele não matou ninguém nem foi acusado disso. O que se cobrou dele foi profissionalismo, o mesmo que ele “jurou” ter no terrão do Corinthians anos atrás, levado com carinho pelas mãos do pai.

Ir para o bar enquanto seu time jogava e não ficar em repouso em período de recuperação clínica gerou o problema, piorado porque ele não apareceu no dia seguinte para trabalhar e já havia dado um ‘perdido’ neste ano para festejar seu aniversário fora da cidade.

Jô não matou ninguém, mas feriu os preceitos do futebol. Faltou com seus colegas e com as pessoas que o ajudavam no clube, como médicos e fisioterapeutas. Desrespeitou o treinador Vítor Pereira, que contava com ele até então. Jô pisou na bola por pensar só nele.

Nada tem a ver com a patrulha que o torcedor faz com os jogadores do seu time. Esse talvez seja o preço da fama. Os clubes devem satisfação para sua torcida e para patrocinadores, enfim, para todos que fazem ele girar na temporada. Experiente que é, Jô deveria saber disso. Deveria ser ele a dar o exemplo aos mais novos.

Mas foi seduzido pela diversão legítima, mas fora de hora. Sem trabalho, sem salário. Ele tinha vínculo até o fim do ano que vem. Era importante para o time, mas não a ponto de fazer as engrenagens parar.

O futebol, no entanto, não costuma agir tão rapidamente. Da falta de Jô à rescisão, demorou dois dias. A diretoria corintiana fez o que se esperava dela, mesmo a despeito de colocar para fora um garoto de sua base, um jogador que cresceu no clube e construiu sua história com a camisa do time.

Futebol dá e tira dos seus jogadores com a mesma mão – ROBSON MORELLI, ESTADÃO
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