GELO E GIM: William Hurt bebe coquetel da KGB na era de Putin – DANIEL M. BENEVIDES, FOLHA

William Hurt bebe coquetel da KGB na era de Putin
Ator, morto em março, deu vida a um investigador russo em ‘Mistério no Parque Gorki’

A cena está em “Mistério no Parque Gorki”, filme de 1983. William Hurt faz o investigador russo Arkady Renko. Inteligente e honesto, ele se vê diante de três cadáveres no parque em Moscou que leva o nome do grande escritor. Estão sem rosto e com as impressões digitais raspadas.

Agentes da KGB surgem em meio à neve e logo instala-se um clima sinistro, com sombras suspeitas por toda parte. Não é, afinal, o que a KGB fazia? Matar adversários sem deixar traços?

O filme veste o clichê, mas também não poupa os EUA, na figura de um empresário inescrupuloso (Lee Marvin e suas espantosas sobrancelhas), que trafica peles de zibelina, artigo de luxo usado como barganha junto a autoridades soviéticas.

O ator William Hurt, morto em março, é homenageado na edição de 2022 do Oscar
O ator William Hurt, morto em março, é homenageado na edição de 2022 do Oscar – Brian Snyder/Reuters
Para nós interessa o momento em que Renko, em missão na Suécia, onde “os excessos são todos permitidos”, pede um stinger. Símbolo da burguesia decadente, o stinger é tomado por americanos ricos desde os anos 1890.

“Vai tomar essa bebida de puta?”, pergunta, com sarcasmo, um agente da KGB, que havia pedido o mesmo. “Eu sou uma puta”, devolve o desiludido detetive, cansado de cair nos desvãos da guerra fria —interna e externa.

O stinger é feito com o melhor conhaque francês e licor branco de menta. Já foi considerado um aliviador de ressacas. No filme “Alta Sociedade” (1956), o mordomo prepara stingers para Bing Crosby e Sinatra, zonzos com o champanhe da noite anterior.

Por décadas foi também tido como um não-coquetel, classificado pelos alcoopólogos como um digestivo. Bebia-se um, e não mais, após as refeições. Seu sucesso, porém, se estendeu até os anos 1970, e fez com que extrapolasse convenções.

Em um conto de Fitzgerald, por exemplo, os personagens entornam vários em seguida, antes, durante, depois. A série “Mad Men” foi ainda mais heterodoxa, ao colocar nas mãos de Peggy Olsen um stinger feito com rum Bacardi, que era sua patrocinadora.

Um sacrilégio que Putin, nos seus tempos de KGB, não cometeria. Até porque, é provável que recusasse esse tipo de indulgência nos altos escalões da burocracia e se ativesse à vodca, bebida mais condizente com seu nacionalismo truculento (nem por isso a vodca merece ser cancelada).

O equivalente americano do espírito russo é o bourbon. É o que toma o advogado Ned Racine, outro papel do saudoso Hurt, num dos melhores thrillers dos anos 1980. O cenário é oposto ao gélido Parque Gorki. “Corpos Ardentes” se passa numa tórrida cidadezinha perto de Miami.

O suor é a medida da sede. Se as cervejas não bastam, a pedida é bourbon com gelo, no único bar do lugar. Racine senta-se ao lado de Matty Walker, femme fatale da Flórida, vivida por uma inflamável Kathleen Turner. As cenas de sexo entre os dois valem por uma garrafa de Hennessy XO.

Já no primeiro aperto de mãos, ele sente o calor na pele. Ela explica, entreabrindo os lábios: “minha temperatura às vezes vai a 38 graus. Deve ser um problema no motor.” “Talvez precise de uma regulagem”, diz ele. “Não me diga. E você tem a ferramenta certa, suponho.” “Não falo assim”, ele se defende.

Do outro lado do balcão, uma fileira de homens tenta escutar a conversa. Com muita inveja. “Quando os móbiles da varanda soam, é sinal de vento. Então saio para me refrescar.” Nua, fica implícito. Assim como Hurt, espectadores/as sentem a picada (sting) do desejo.

GELO E GIM: William Hurt bebe coquetel da KGB na era de Putin – DANIEL M. BENEVIDES, FOLHA
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