Guedes virou um ex-superministro – BERNARDO MELLO FRANCO, O GLOBO

DEBANDADA NA ECONOMIA

Guedes virou um ex-superministro

Por Bernardo Mello Franco13/08/2020 • 00:00O ministro Paulo Guedes em entrevista no CongressoO ministro Paulo Guedes em entrevista no Congresso | Adriano Machado/Reuters

A debandada na equipe econômica transformou Paulo Guedes num ex-superministro. O fenômeno já havia ocorrido com Sergio Moro, que acreditou ter carta branca e foi esvaziado até deixar o governo. Agora se repete com o fiador do bolsonarismo junto ao mercado.

No mesmo dia, abandonaram o barco os secretários de Desestatização, Salim Mattar, e de Desburocratização, Paulo Uebel. Eles reclamaram que as privatizações e a reforma administrativa não saem do papel. O principal motivo é a falta de interesse do capitão.

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Na campanha, Guedes garantiu que Bolsonaro havia se convertido ao ultraliberalismo. Logo ele, que pregou o fuzilamento de Fernando Henrique Cardoso por causa do leilão de estatais. O ministro anunciou um plano radical de redução do Estado. Em um ano e meio, não entregou quase nada do que prometeu.

Algumas de suas propostas, como zerar o deficit público em um ano e arrecadar R$ 1 trilhão com a venda de imóveis públicos, sempre soaram como anúncios de terreno na Lua. Acreditou quem quis.

Além de vender ilusões, Guedes criou múltiplas frentes de atrito. Ele brigou com o presidente da Câmara, chamou servidores de “parasitas”, ofendeu pobres que deixaram de viajar após a disparada do dólar. É inesquecível a sua fala sobre os tempos do real valorizado. “Empregada doméstica indo para Disneylândia, uma festa danada… Pera aí!”, ironizou.

A pandemia desmontou de vez a fantasia do governo ultraliberal. Vendo sua reeleição em risco, Bolsonaro deixou de se aconselhar no Posto Ipiranga. Sem combustível, Guedes perdeu espaço para ministros que defendem o aumento do gasto público, como seu ex-assessor Rogério Marinho. Agora vê outros auxiliares fazendo as malas para fugir de Brasília.

Ao confirmar a debandada na equipe, o titular da Economia jogou pesado. Acusou colegas de induzirem o chefe a “pular a cerca” da responsabilidade fiscal. “Vão levar o presidente para uma zona sombria, uma zona de impeachment”, dramatizou. Ontem o capitão ensaiou uma defesa protocolar da austeridade. Mas quem bancava essa agenda já perdeu a aura de superministro.

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