HÁ UMA FOME DE DESPOLARIZAÇÃO POLÍTICA NO AR – JOSIAS DE SOUZA, BLOG DO JOSIAS

O Brasil vive uma época de faltas: falta de saúde, de sensatez, de rumo, de cordialidade, de equilíbrio financeiro, de segurança jurídica, de investimentos, de oportunidades, de emprego… O país atravessa, em contrapartida, uma época de excessos: excesso de morte, de radicalismo, de mediocridade, de hostilidade, de instabilidade, de medo, de ruína, de desigualdade, de desocupação.

Diante de uma conjuntura assim, tão desoladora, a presença nas ruas de extremistas pró e contra Bolsonaro provoca tédio no pedaço majoritário da sociedade que se esforça para sobreviver à pandemia. Mas o enfado começa a emitir sinais de que pode se converter no lado bom da crise. Por trás do bocejo parece haver um grito silencioso.

Em São Paulo, os manifestantes foram ao asfalto neste domingo em número infinitamente inferior aos 4.300 policiais militares mobilizados para evitar excessos. Em Brasília, três dezenas de gatos pingados encerraram seu protesto num ponto que vai se tornando uma espécie de habitat natural do bolsonarismo: a área defronte do QG do Exército.

A conversão de torcidas de futebol em movimentos pró-democracia e de apologistas da intervenção militar em heróis da resistência promove uma revolução semântica que leva à redescoberta da pontuação, o ramo da ortografia que valoriza o ritmo e a emoção das palavras. O brasileiro vinha perdendo o hábito de questionar. Espantava-se cada vez menos.

De repente, o naco do país que ainda se mantém sóbrio percebe que certas manifestações são válidas apenas até certo ponto. O ponto de interrogação. Para que servem?, começam a se perguntar os entediados.

Cenas como o bombardeio do prédio do Supremo Tribunal Federal com fogos de artifício ressuscitam o ponto de exclamação. A voz do antiministro da Educação, Abraham Weintraub, soando horas depois num áudio captado à beira do meio-fio —”Já falei minha opinião, o que faria com esses vagabundos”— devolve à plateia a capacidade de se espantar.

“Se os macacos soubessem se entediar”, dizia Goethe, “poderiam ser homens”. Vivo, Darwin enxergaria nas ruas do Brasil indícios de que o homem brasileiro parou de evoluir. E constataria que, não fosse o tédio da maioria, o macaco já teria retornado à cena para perguntar ao homem: “Acha que valeu a pena?”

O excesso de delírio fará o brasileiro amar a realidade. Com Bolsonaro e seu elenco de apoiadores e de opositores extremados vai se esgotando a paciência com a fase da caricatura. Há uma fome de despolarização no ar. Surge, ainda que de forma incipiente, uma busca por um cotidiano não ideológico e sensato.

O escritor mineiro Paulo Mendes Campos (1922-1991) contou numa de suas crônicas um caso que sucedeu com o pintor pernambucano Augusto Rodrigues (1913-1993) numa viagem pelo sertão de Pernambuco. Sofreu um contratempo com o automóvel.

Enquanto esperava pelo conserto, Augusto Rodrigues entrou numa tapera. Puxou conversa com a caçula de uma família numerosa: “De quem você gosta mais, do papai ou da mamãe?” A resposta da menina raquítica surpreendeu pelo pragmatismo: “Gosto mais é de carne.”

Acontece algo parecido com os brasileiros fartos da polarização que infectou a política. Assim como a menininha do sertão pernambucano, os patrícios sensatos sofrem uma carência aguda de proteína. Seu desejo por soluções é mais forte do que amor filial. Cedo ou tarde, esse anseio por resultados prevalecerá sobre a maluquice improdutiva.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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