HEMORRAGIA CULTURAL – RUY CASTRO – FOLHA DE SP

O ataque ostensivo à inteligência pode estar ocultando outras graves ocupações

Quando Jair Bolsonaro reduziu o Ministério da Cultura a uma subpasta e a subordinou ao Ministério do Turismo –este, hoje só um salvo-conduto para proteger um político sob suspeita–, pensou-se que fazia isso por sua ignorância do que seja cultura. É claro que tal hipótese não pode ser afastada. Tudo indica que, para Bolsonaro, que nunca abriu um livro em sua miserável vida, a cultura realmente se resuma a shows de sertanejos ou novelas da TV Record.

Mas talvez haja algo mais por trás de tanta boçalidade. Talvez ele o faça de propósito. Bolsonaro e seus asseclas não passam um dia sem achincalhar os produtores de cultura, degradar suas instituições e humilhar a enorme massa da população para quem a arte e o pensamento são essenciais para sua realização humana. É uma agressão permanente a uma categoria desarmada, uma demonstração contínua de que são capazes de se impor sobre a inteligência e que estão dispostos a reescrever a história –tanto a passada, com seus revisionismos equinos, como a que se irá escrever. 

Neste momento, homens e mulheres de ciência e experiência comprovadas, com décadas de dedicação a instituições sérias e apolíticas, estão sendo alijados de seus cargos e substituídos pelas mais chapadas nulidades. Essa ocupação pela mediocridade está se dando na Biblioteca Nacional, na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), na Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura, na Funarte, na Ancine (Agência Nacional de Cinema), na Secretaria de Audiovisual, na Fundação Palmares e contaminando até as instituições estaduais. 

É uma hemorragia que, por chamar tanto a atenção, pode ser uma manobra para encobrir ocupações em outros órgãos igualmente vitais para o destino do país –na administração pública. 

Talvez elas estejam se dando, sem que percebamos, sob nossos narizes.

Protesto na Fundação Cultural Palmares por causa da indicação de Sérgio Camargo para presidir o órgão – Pedro Ladeira/Folhapress

Ruy Castro

Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues.

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