HUMOR: A ema não quis ter razão, só quis ser feliz – CLAUDIA TAJES, FOLHA


Depois do caso Hélio Schwartsman, ministro da Justiça vai apelar novamente para a Lei de Segurança Nacional

Parece que, depois do caso Hélio Schwartsman [cuja coluna “Por que torço para que Bolsonaro morra” levou o ministro da Justiça, André Mendonça, a requisitar a abertura de um inquérito pela Polícia Federal], o ministro da Justiça vai apelar novamente para a Lei de Segurança Nacional, que prevê, em seu texto, os crimes contra a segurança e a ordem política e social do país.

A nova situação é mais grave que a do colunista da Folha, que expressou em público o que muitos pensaram no aconchego de seus lares.

Contra Hélio, André Mendonça cogitou invocar a incidência do artigo 26 da Lei de Segurança Nacional, “caluniar ou difamar o presidente da República, o do Senado Federal, o da Câmara dos Deputados ou o do Supremo Tribunal Federal”.

Como muitos e respeitados advogados e juristas já disseram, torcer pela morte de alguém, se não é bonito, também não configura calúnia ou difamação. Talvez fosse oportuno incluir novos artigos na lei, por exemplo, “não desejar coisa feia para os outros” ou “não ter ideias não cristãs”. Em qualquer dessas alternativas, o colunista seria condenado, não escapando de ficar sem TV depois do jantar, além de levar muitos pais-nossos de penitência.

Voltando à Lei de Segurança Nacional em defesa do presidente. Dessa vez, a acusada é a ema do Palácio da Alvorada. E há consenso. Prós e contras, crentes e ateus, quem toma cloroquina e quem toma tubaína, não há quem discorde que a ema passou de todos os limites. Bicar o líder da nação quando ele tentava alimentá-la! Que ema ingrata e que bicada inoportuna.

Se os dois estivessem discutindo política, daria até para entender. Ainda assim, considerando-se que a ema apresentaria os argumentos mais lógicos, ela não precisaria chegar às vias de fato.

Com base no acontecido, o ministro da Justiça poderá invocar a incidência do artigo 27 da Lei Segurança Nacional: “Ofender a integridade corporal ou a saúde de qualquer das autoridades mencionadas no artigo anterior”, ou seja, do presidente da República e os dos demais poderes.

Sendo a lesão provocada por ela mais leve que uma pluma de ema, ficará de bom tamanho a aplicação da pena (sem trocadilhos) mínima, de um a três anos de reclusão. Se a ema for primária, talvez possa usar tornozeleira eletrônica e ficar em casa, à moda do casal Queiroz.

A ema não quis ter razão, só quis ser feliz. Grande ema.

Claudia Tajes
Escritora e roteirista, tem 11 livros publicados. Autora de “Macha”
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HUMOR: A ema não quis ter razão, só quis ser feliz – CLAUDIA TAJES, FOLHA
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