“Industria Americana”, e o choque cultural – ANTONIO GOIS, O GLOBO, RJ

EDUCAÇÃO

O ponto alto do excelente documentário Indústria Americana – vencedor do Oscar deste ano – é o retrato do choque cultural causado pela chegada de uma indústria de vidros automotivos chinesa ao estado de Ohio. A empresa se instala no mesmo local onde funcionava antes uma fábrica da General Motors, recontratando muitos dos funcionários que haviam perdido o emprego na época. A multinacional asiática, porém, tem dificuldade para obter em solo americano a mesma produtividade dos trabalhadores em seu país de origem. 

Empregados chineses e locais, ao conviverem no mesmo espaço, demonstram estranhamento pela forma como se relacionam com o trabalho, especialmente em questões como as horas dedicadas ao serviço, preocupações com segurança, e a presença ou não de sindicatos. O documentário não trata de educação. Mas, da mesma forma que é impossível entender diferenças de produtividade entre trabalhadores chineses e norte-americanos sem considerar esse contexto cultural, é preciso também sempre levar em conta essas questões ao comparar resultados educacionais de países muito diversos.

Nações asiáticas hoje dominam o ranking do Pisa, principal exame internacional de aprendizagem, organizado pela OCDE. No entanto, boa parte dessa vantagem é explicada justamente por alguns comportamentos que dificilmente seriam assimilados em sociedades ocidentais. É o caso da intensa pressão as famílias fazem sobre seus filhos. 

No livro “As Crianças Mais Inteligentes do Mundo”, a jornalista norte-americana Amanda Ripley entrevistou estudantes de seu país que tiveram experiências educacionais em nações de melhor desempenho no Pisa. O capítulo mais interessante é sobre a Coreia do Sul, com o relato de um aluno americano surpreso ao perceber que alguns de seus colegas de classe dormiam nas primeiras aulas da manhã. Não era preguiça ou desrespeito ao professor. Aqueles estudantes acumulavam jornadas que, em alguns casos, superavam 12 horas diárias, pois, ao final das aulas regulares, eram levados pelas famílias para cursos de reforço, uma prática muito comum também na China, Japão e Singapura, outras nações asiáticas de alto desempenho educacional. 

No mês passado, a Fundação Qatar divulgou um estudo internacional sobre a avaliação de jovens de 20 nações sobre o sistema educacional de seus países. Mesmo tendo um dos melhores desempenhos do mundo quando avaliados pelo Pisa, apenas 6% dos jovens sul-coreanos se diziam plenamente satisfeitos com a educação que receberam. Na China, esse percentual era de 21%. No Brasil, mesmo ficando muito atrás dessas nações no exame da OCDE, o percentual de satisfação plena com a educação chegava a 32%.

O fato de jovens brasileiros estarem mais satisfeitos do que asiáticos obviamente não é evidência de que nosso sistema educacional seja melhor. Longe disso, e a mesma pesquisa mostra também que os alunos brasileiros são, entre todos os países comparados, os que menos concordam com a afirmação de que há oportunidades iguais para todos nas escolas.  Mas a baixa satisfação dos estudantes asiáticos é um tema que preocupa as autoridades educacionais desses países, que tentam convencer as famílias a colocarem menos pressão em seus filhos.

Olhar para a experiência de países com alto desempenho educacional em busca de inspirações de políticas que possam ser adaptadas é um exercício válido. O problema, como sempre, está na simplificação, como se fosse possível copiar modelos desconsiderando contextos econômicos e culturais.

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