INSUFICIÊNCIAS DO “POSTO IPIRANGA” – JOSIAS DE SOUZA, BLOG DO JOSIAS NO UOL

Chamado de Posto Ipiranga, Paulo Guedes ainda não conseguiu abastecer Jair Bolsonaro de conhecimentos básicos sobre economia. Mas assimilou rapidamente um hábito deplorável do chefe. A exemplo do presidente, o ministro da Economia passou a falar dez vezes antes de pensar. Quando a pessoa não pensa no que diz, acaba dizendo o que realmente pensa.

Ao celebrar a mistura de juros baixos com dólar alto como o novo normal da economia brasileira, o ministro soou adequado enquanto se manteve na seara técnica. Realçou, por exemplo, que o câmbio valorizado impulsiona as exportações brasileiras. Tropeçou na língua, porém, ao tentar trocar seu pensamento em miúdos.

“Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para Disneylândia, uma festa danada”, ralhou Paulo Guedes. “Pera aí. Vai passear ali em Foz do Iguaçu, vai passear ali no Nordeste, está cheio de praia bonita.”

O ministro oscilou entre a logorreia, que é a compulsão para falar demais, e a demofobia, que é a aversão ao povo. Coisa decepcionante e inútil. Decepciona porque esperava-se de Paulo Guedes que funcionasse como contraponto sensato aos arroubos de Bolsonaro. É inútil porque as empregadas domésticas que conseguem salvar o emprego ralam duro para encher a geladeira, não para visitar o Michey Mouse.

Na semana passada, o ministro havia comparado, em timbre genérico, servidores públicos a “parasitas”. A péssima repercussão levou-o a pedir desculpas. Alegou que o comentário fora retirado de contexto pelos jornalistas. Lorota. Nas pegadas do sincericídio, subiu no telhado a reforma administrativa. Bolsonaro resiste em enviar uma proposta do governo ao Congresso.

Nesta quarta-feira, Paulo Guedes enfiou as domésticas em sua prosa ao discursar num seminário, em Brasília. A certa altura, declarou: “Não estou ligando muito para os maus modos do presidente, eu tenho maus modos também, vivo falando besteira. A forma a gente erra, mas o importante é o conteúdo.”

Pode-se até tolerar a besteira. O difícil é aceitar quem se orgulha dela. É uma pena. Mas o Posto Ipiranga já não consegue abastecer nem a si mesmo de meio litro de bom senso.

INSUFICIÊNCIAS DO “POSTO IPIRANGA” – JOSIAS DE SOUZA, BLOG DO JOSIAS NO UOL
Rolar para o topo