IRÃ, IRAQUE E EUA – ELIO GASPARI – O GLOBO, RJ

Irã, Iraque e EUA

A última escalada da encrenca dos Estados Unidos com o Irã no Iraque mostra que o ensinamento do Chacrinha (“Eu não vim pra explicar, vim pra confundir”) vale mais que todas as certezas das pessoas que julgam os acontecimentos a partir de suas ligações ideológicas e automáticas.

Em 2003, quando George Bush, o Jovem, invadiu o Iraque e enforcou Saddam Hussein, os sábios da Casa Branca achavam que construiriam a primeira grande democracia da região. Passados 16 anos, o governo do Iraque pediu aos Estados Unidos que deixem o país. (Nessa aventura já morreram centenas de milhares de iraquianos e cinco mil americanos.)

Depois que Donald Trump mandou matar o general iraniano Qassem Soleimani, os aiatolás ordenaram um ataque de mísseis contra três bases americanas. Não morreu ninguém. Já nas grandes manifestações ocorridas em Teerã, durante o funeral de Soleimani, morreram pelo menos 56 pessoas. (Em 1953, durante o funeral de Stalin, morreram mais de cem.)

Para confirmar que Chacrinha sabia mais que os sábios, diante da possibilidade de uma guerra com os Estados Unidos (o “Grande Satã”), os iranianos fizeram filas diante de casas de câmbio para comprar dólares ou euros.

Se tudo isso fosse pouco, o maior número de mortes (176 pessoas) aconteceu porque os iranianos teriam derrubado um avião da Ucrânia que acabara de decolar em Teerã.

O divino Ghosn

O andar de cima de Pindorama acha que os servidores do Estado brasileiro são seus empregados. Depois de fugir do Japão dentro de uma caixa, numa operação conduzida por uma milícia supranacional, o empresário Carlos Ghosn queixou-se:

“Esperava mais ajuda do governo brasileiro”.

Ghosn foi visitado na cadeia pelo cônsul brasileiro, coisa que não acontece aos milhares de imigrantes que são detidos pelo governo americano. Depois de se tornar um empresário-celebridade como presidente da Renault-Nissan, ele é acusado de ter malversado milhões de dólares para lustrar seu estilo de vida. Tendo escapado para o Líbano, tornou-se apenas uma foragido da Justiça.

Ghosn nasceu no Brasil, onde viveu em criança, e tem duas outras nacionalidades, a francesa e a libanesa. Talvez ele quisesse que a Viúva defendesse seus interesses. Admitindo-se que isso tivesse sido feito, sua fuga colocaria os diplomatas brasileiros no papel de palhaços.

Eremildo, o idiota

Eremildo é um idiota e acha que o desembargador Benedicto Abicair não fez nada demais ao escrever que a “suspenção” do vídeo natalino do Porta dos Fundos é benéfica. Afinal, o çom é o mesmo e o ministro da Educassão também escreve assim.

O que o cretino não entende é que em 2017 o mesmo magistrado tenha assegurado a Jair Bolsonaro o direito de sugerir que casamentos de brancos com negros são “promiscuidade”. Segundo seu voto na ocasião: “Tudo é direito de cada cidadão, desde que não infrinja dispositivo constitucional ou legal”.

O vídeo do Porta dos Fundos, com um Cristo gay amancebado com Lúcifer e Maria fumando maconha, é coisa muito diferente, mas o doutor não explicou qual dispositivo constitucional ou legal foi violado. O ministro Dias Toffoli não conseguiu achá-lo.

Sabedoria

De um veterano advogado, diante do vai e volta de ministros do Supremo e de magistrados:

“Estão falando muito que isso ou aquilo traz insegurança jurídica. Seria melhor se começassem a aparecer decisões que trazem segurança jurídica”.

Conservadorismo e atraso

Há os conservadores e há os atrasados. Quando a Casa de Rui Barbosa resolve organizar eventos em torno de grandes conservadores como a inglesa Margaret Thatcher e o americano Ronald Reagan, roça a macaquice.

Faria muito melhor discutindo figuras do conservadorismo brasileiro como Carlos Lacerda, Francisco Campos, Eugênio Gudin e Roberto Campos.

Macaqueando, pela direita faz-se um evento para Ronald Reagan e pela esquerda pode-se fazer outro para Jean-Paul Sartre. Tudo coisa de gente letrada, no país presidido por Jair Bolsonaro, no estado de Wilson Witzel e na cidade de Marcelo Crivella.

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