JÁ ESQUECI COMO ERA O FUTEBOL ANTES DA PANDEMIA – TOSTÃO, FOLHA

Já esqueci como era o futebol antes da pandemia
Tenho grandes dúvidas na avaliação do esporte com e sem torcida

Durante esta prolongada quarentena, que não acaba, vi tantas partidas sem torcida que já esqueci como era o futebol antes da pandemia. Piorou, melhorou ou está igual? Tenho milhares de dúvidas. As estatísticas e opiniões são controversas. O silêncio no estádio é menos compreensível.

Os visitantes, na média, têm tido atuações e resultados melhores que antes? Nesta semana, não houve surpresa nas vitórias do América e do Cuiabá, fora de casa, sobre Corinthians e Botafogo, pela Copa do Brasil. Somente o Grêmio, contra o Juventude, venceu em casa. Em outras situações, mesmo sem torcida, prevaleceu a vitória dos mandantes.

Na média, com a ausência de torcida, alterou muito o número de gols, de passes para gol, faltas, pênaltis, finalizações e bolas cruzadas na área? Os jogadores, sem aplausos e sem vaias, melhoraram ou pioraram? Geralmente, com a presença do público, alguns se agigantam e outros se abatem. Os treinadores ficaram mais ou menos inspirados por não serem chamados de burros? O fato de seus gritos, palavras e palavrões, serem ouvidos por milhares de telespectadores atrapalha ou ajuda os técnicos?

Sei que dezenas de estatísticas do futebol sem torcida têm sido reveladas —não sou um devorador de estatísticas–, mas penso que este seria o momento ideal para se fazer um grande estudo mundial sobre o assunto, com comparações com o futebol anterior. Isso ajudaria na evolução do esporte.

Muitos treinadores brasileiros, antes e durante a pandemia, reclamam que são excessivamente criticados, enquanto os técnicos europeus, aqui ou fora, são bastante elogiados. Não é tanto assim.

É uma mistura de inveja e ciúme ou, às vezes, isso acontece. Há um encanto exagerado por muitos técnicos que trabalham na Europa e que não merecem. Não há dúvida que se joga na Europa um futebol mais moderno e eficiente, mas a principal razão da maior qualidade é a presença de mais craques.

A ânsia de ver excelentes jogos no Brasil é tanta, que muitos disseram que a belíssima partida entre Inter e Flamengo foi superior à dos clássicos europeus. Falaram que lembrou Santos e Botafogo dos anos 1960. Gerson virou o novo Didi. Menos, menos.

Após a Copa de 2002, os alemães falavam que sua seleção vice-campeã do mundo era a pior dos últimos 50 anos. A partir daí, houve uma transformação no futebol europeu. Enquanto isso, o Brasil festeja, até hoje, o pentacampeonato. Parou no tempo.

Nesta quarentena, assisti também a todos os jogos dos grandes times europeus. Vi muitos erros dos treinadores, mesmo os mais badalados. O PSG está quase sempre com o time desorganizado em campo. Uma equipe que tem Mbappé e Neymar deveria jogar muito melhor, individual e coletivamente.

Pogba brilhou na Juventus e continua sendo um dos grandes destaques da seleção francesa como meio-campista, de uma área à outra, onde aproveita seu talento, sua força física e suas passadas largas.
Já no Manchester United, há anos, atua ao lado de outro volante, quase somente na marcação. Na vitória por 5 a 0 sobre o Leipzig, jogou muito, como na seleção francesa. Provavelmente, voltará a ser escalado como volante, mais recuado.

Tenho grandes dúvidas na avaliação do futebol com e sem torcida. Mas uma coisa é certa. O São Paulo, com ou sem público, nos últimos anos, com ou sem Fernando Diniz, fraqueja nas decisões. O psicólogo Fernando Diniz deveria reler seus livros e consultar seus antigos professores.

Tostão
Cronista esportivo, participou como jogador das Copas de 1966 e 1970. É formado em medicina.

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