Jetski na maionese – VOLTAIRE DE SOUZA, FOLHA

Jetski na maionese
Diante da guerra na Ucrânia, o bolsonarismo estuda a melhor tática

Guerra. Medo. Invasão.

A situação na Ucrânia é preocupante.

Em Brasília, o general Perácio analisava os acontecimentos.

–Já chegou o último relatório da nossa inteligência?

O assessor Guarany ficou sem graça.

–Não sei se existe, general.

A mão de granito explodiu sobre o tampo da mesa de jacarandá.

–Como assim? Não existe relatório?

–Hã… não foi isso o que eu quis dizer.

–Então o que foi que você quis dizer?

Guarany começou a suar frio.

–Nada…

Perácio tentava se acalmar.

–Muito bem. Não é o mais importante.

–Não é mesmo, general.

–Precisamos agir.

–O senhor diz, no caso da Ucrânia?

–A guerra acontecendo… e nós sem fazer nada!

–Muito triste, né, general.

–Nossos aliados enfrentam dificuldades.

–É mesmo, general?

–Os tanques do Putin. Parados. Parece que sem gasolina.

–Coitado dele, né general.

–Temos os mesmos valores. Os mesmos ideais.

–Quais exatamente, general?

–A família. A pátria. O combate à boiolagem.

Guarany deu um risinho.

–Hehe, aí não sei não, general.

–Como assim, Guarany? Explique-se, seu cretino.

O assessor se lembrava de umas fotos engraçadas.

–O Putin andando a cavalo… de peito de fora.

–O que é que tem?

–Parece coisa de gay, general.

Perácio ficou pensando.

–Será? Será?

Havia outros problemas.

–Mandar gasolina para ele…

–Seria um operação e tanto, general.

–E com o preço que está aqui no tanque…

–Verdade, general.

–Por outro lado, o nosso exército não pode ficar parado.

–Nunca, general.

–Senão cria banha e pneuzinho na cintura.

–Isso chega a ser um atentado à nossa brasilidade, né, general?

–Claro. Hehe. Estou com sessenta e anos e, modéstia à parte…

–O seu corpo é ótimo, general, se me permite.

–Hehe, permito, Guarany.

O crepúsculo caía suavemente sobre a Esplanada dos Ministérios.

Perácio se levantou de repente.

–Chega. Chega dessa conversa.

A voz dele se tornou áspera. Rouca. Estranhamente grossa.

–Já tomei a decisão. Hôk, hôk.

–Qual, general?

–Seguindo o exemplo de Putin…

–Exato.

Perácio tirou a parte de cima da farda.

–Vamos invadir a Venezuela.

–Mas, general…

–Ameaça à nossa segurança.

–Será que nossos tanques aguentam o tranco?

Perácio sorriu com superioridade.

–Por mar. Pelos rios.

–De navio? Mas a gente é do Exército, não da Marinha.

–De jetski, imbecil.

Perácio explica o modelito.

–Tirei a farda para colocar o coletinho.

–Que nem o presidente, né?

–E não me digam que o Putin é mais macho do que ele.

Um governo se beneficia quando está com os pés no chão.

Mas, por vezes, prefere um jetski na maionese.

Jetski na maionese – VOLTAIRE DE SOUZA, FOLHA
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