JUNTO COM 2020, ACABA MAIS UMA DÉCADA PERDIDA – JOSIAS DE SOUZA, BLOG NO UOL

Costumamos ler a história como um enredo pontuado por desastres ou eventos simbólicos. Os brasileiros do futuro enxergarão o momento atual como um desses pontos marcantes. A pandemia, uma calamidade que o Brasil compartilha com o resto do mundo, se mistura com um flagelo genuinamente nacional. O que está acabando neste 31 de dezembro no Brasil não é apenas o ano de 2020. Do ponto de vista econômico, vivemos o fim de mais uma década perdida. O coronavírus potencializou um estrago que já estava contratado.

Em 2015 e 2016, sob Dilma Rousseff, a economia brasileira despencou 3,5% e 3,3% respectivamente. Sob Michel Temer, produziram-se em 2017 e 2018 dois pibinhos de 1,1%. No primeiro ano de Jair Bolsonaro, ainda sem pandemia, obteve-se outro pibinho de 1,4%. Um economista do governo me disse que, para evitar que a década se perdesse, seria preciso crescer em 2020 mais de 8%.

Não se esperava tanto. Mas avaliava-se que, sem o vírus, o crescimento de 2020 rodaria na casa de 2%. Em vez disso, estima-se que o Brasil fecha o ano amargando uma recessão de algo em torno de 4,5%. Na prática, essa conjuntura envelhece precocemente o suposto ano novo. Se você acha que 2020 foi um ano duro de roer, não deixe de erguer um brinde ao ano velho. Ele pode ser menos pior do que 2021. O Brasil entra em 1º de janeiro com o pé esquerdo. A recuperação da economia depende de uma vacinação que começará com atraso e de reformas econômicas que ninguém sabe se acontecerão.

Há 80 anos, na década iniciada em 1941, o escritor austríaco Stefan Zweig publicou o livro “Brasil, País do Futuro.” Nessa obra, ele anotou que, ao estudar o Brasil, percebeu que “havia lançado um olhar para o futuro do mundo.” O autor dessa premonição suicidou-se. Com os olhos voltados para o futuro, ele não suportou o presente. Vivo, Stefan Zweig talvez escrevesse um outro livro. O título seria “Brasil, o mais antigo país do futuro do mundo.” Que nós tenhamos um 2021 tão bom quanto formos capazes de produzir.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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