Liberdade para amar – MIRIAN GOLDENBERG, FOLHA

Em um mundo polarizado pelo ódio, até as escolhas amorosas e sexuais se tornaram um flá-flu

Amor e sexo são temas que sempre provocam interesse, como constatei nas mensagens sobre a coluna “O fim do sexo”.

Uma atriz de 43 anos revelou que está mais feliz com o amante virtual do que com o marido:

“Meu marido só sabe me julgar, me criticar, me comparar com outras mulheres. Nunca me elogia ou reconhece o meu valor. Em 2018, conheci um canadense em um site de paquera. Tenho mais diálogo, escuta e intimidade com ele do que jamais tive com meu marido. Estamos apaixonados, e ele quer vir morar comigo. Tenho medo de estragar tudo, medo de que a relação não seja tão perfeita e prazerosa na vida real”.

Para uma psicóloga de 57 anos, o mundo virtual pode ser mais verdadeiro que o real:

“Estava me sentindo velha, acabada e invisível. Até que descobri o ciberespaço. Foi uma revolução na minha vida amorosa e sexual. Sou mais livre, sedutora e poderosa online do que no mundo real. Posso usar outras armas de sedução: uma voz gostosa, uma conversa inteligente, uma provocação divertida. Tenho três namorados virtuais completamente loucos por mim. Não é mentira, falsidade ou hipocrisia. É desejo, fantasia e imaginação. Posso ser eu mesma, sem medos, culpas e vergonhas”.

Ela concluiu:

“O amor e o sexo nunca vão desaparecer, pois gosto de sentir o corpo, o cheiro e o calor de um homem de verdade. Nenhuma máquina substitui um beijo gostoso, uma boa pegada, um abraço aconchegante. Na semana passada, participei de uma suruba virtual, com um monte de gente dançando pelada. Achei engraçado, mas não senti o menor tesão. Estou solteira e tenho abusado dos encontros virtuais e do vibrador. Óbvio que fica faltando ter um companheiro de verdade, mas basta um clique e conheço alguém interessante. Tudo agora vira um flá-flu: ou é real ou é virtual. Precisa polarizar o amor e o sexo? Por que não podemos ser livres e aproveitar o que existe de melhor nos dois mundos?

Mirian Goldenberg

Antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio, é autora de “A Bela Velhice”.

Liberdade para amar – MIRIAN GOLDENBERG, FOLHA
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