Luto, pandemia e guerra – MARGARETH DALCOLMO, GLOBO RJ

TEMPOS DIFÍCEIS

Luto, pandemia e guerra
Por Margareth Dalcolmo

No turbilhão dos meus últimos dias, nos quais vivo um luto pessoal impartilhável, seria o momento de registrar minha gratidão pelas manifestações de solidariedade mais candentes que jamais pensara receber. A começar pelo gesto gratuito porque movido por pura generosidade e reconhecimento de um mérito que não me outorgaria, que recebi do empresário local, Nelson Bezerra, por inciativa do grupo Mulheres do Brasil, que me permitiu rapidamente retornar num jato de Pernambuco ao Rio de Janeiro, com a morte súbita de meu marido.

No Recife, onde estava em razão da pandemia e por meu livro “Um Tempo para não esquecer”, tive a chance de conversar com o governador Paulo Câmara e secretário da Saúde, e observei medidas sanitárias desabridas e corretas, porém a despeito delas, baixa cobertura vacinal pediátrica. Como já o declarara nas redes locais, esclareci sobre a relevância de vacinar nossas crianças e aumentar a vacinação visando reduzir o número de casos graves e de mortes. Igualmente, coube novo alerta quanto à temeridade das festas privadas de Carnaval que se proliferam em tantas cidades, apesar das proibições de blocos e desfiles no país, fazendo parecer cantilena inútil, o esforço continuado e resiliente da comunidade científica. Com a ainda baixa cobertura da população pediátrica, é alentador o aguardar dos resultados dos estudos no Chile, com a vacinação de crianças a partir de três anos, com a Coronavac, e da Pfizer que pretende pedir regulamentação emergencial junto ao FDA, para lactentes a partir de seis meses, até quatro anos, pela perspectiva de proteger mais de 15 milhões de brasileiros.

Nesse meio do segundo Carnaval da pandemia, ainda com centenas de mortes por dia no Brasil, não nos surpreenderemos com a emergência de muitos casos de Covid19, ao tempo que estimamos um novo impacto epidemiológico nas hospitalizações e mortes nas próximas duas semanas.

Mas francamente, como pensar em pandemia apenas, quando o planeta foi contaminado pela racionalidade mais insana, se esse oxímoro fosse aceitável, na materialização de uma guerra de ocupação tão inaceitável como a invasão da Ucrânia? Que racional se impõe quando acordamos nestes dias com contagem de ogivas e anúncio de que forças nucleares estão de alerta, a nos fazer perguntar, com profunda angústia se se trata de bravata ou radicalização desse páthos? Shakespeare no antológico terceiro ato de Rei Lear, nos lembra que “A verdade crua do homem, é que sem os artifícios da civilização, este vira um pobre animal”, a abalar a solidez das sofisticadas construções que distinguem mendigo e rei. Essa guerra é um caso a nos colocar esse dilema existencial, se o que querem os que tomam decisões com base num realismo pragmático, é que nos transformemos em pobres animais de dominação, abrindo mão do melhor da civilização.

Ao dilaceramento na dor dos que perderam seus queridos na pandemia se soma o olhar dos ucranianos em seus bunkers de estação de metrô, ou na retirada de seus lares em direção às fronteiras, ou na despedida de seus homens que devem ficar para lutar, num corpo a corpo tão heróico quanto obsoleto em pleno século XXI. Feridos atavicamente por sua história da espoliação e fome a que foram submetidos pela tirania stalinista, nosso consolo é olhar a bela bandeira azul e amarelo, na força do significado do céu azul sobre os infinitos campos de trigo e saber o quanto a Ucrânia é fonte de tanta inspiração ao longo da história, na música, na literatura, na poesia, na filosofia.

Saramago nos diz profética e tristemente que “resulta mais fácil educar os povos para a guerra do que para a paz. Para educar no espírito bélico basta apenas os mais baixos instintos educar para a paz implica ensinar a reconhecer o outro, a entender suas limitações, a negociar com ele, a chegar a acordos”. Realismos pragmáticos, argumento usado para a trágica situação que ora vivemos no planeta, não encontram mais justificativa alguma.

Luto, pandemia e guerra – MARGARETH DALCOLMO, GLOBO RJ
Rolar para o topo