Manaus é a sentinela de Covid do mundo – ATILA IAMARINO, FOLHA

Manaus é a sentinela de Covid do mundo
Cidade controlou a doença na marra, às custas de muitas mortes

Que Manaus passou por um dos piores cenários no país, não há dúvida. Mas a importância desse fato é muito maior do que parece.

Entre abril e maio, faltaram leitos de UTI (unidade de terapia intensiva) na rede pública —o colapso do sistema de saúde— e a proporção de mortes em excesso foi uma das maiores do país.

A combinação de vários índices contribuiu: poucos médicos por habitantes; Manaus é uma das poucas cidades da Amazônia com leitos de UTI —muitos precisam viajar por horas ou dias para ter atendimento—; índices de saneamento básico, educação e afins estão entre os mais baixos do país…

A lista de causas é quase tão longa quanto a lista de desculpas que o país arranja para não responder pela sua responsabilidade. Para completar, a análise do histórico de casos mostrou que o transporte fluvial contribuiu muito para o vírus se interiorizar. Com dezenas de pessoas aglomeradas por muitas horas em um espaço confinado, o vírus teve uma ajuda enorme da desigualdade e do nosso comportamento.

O resultado fica evidente agora. Em uma análise da imunidade contra a Covid-19, pesquisadores da USP, da Fiocruz, da Fundação Hospitalar de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas, da Universidade Federal do ABC, do Ipea, da Universidade Harvard, do Imperial College e da Universidade de Oxford divulgaram resultados bastante preocupantes.

O estudo, que ainda não foi revisado por pares e pode mudar seus resultados, usa os anticorpos contra o novo coronavírus encontrados em bolsas de sangue para estimar quantas pessoas se curaram da doença na cidade de Manaus. Eles encontraram anticorpos em 44% das bolsas doadas. Corrigindo para a perda de anticorpos que acontece com o tempo e para a sensibilidade dos testes, eles estimam que 66% da população de Manaus tenha contraído a doença e se curado até o mês de junho deste ano.

A população que doa sangue não é um retrato fiel de toda a população da cidade. O estudo tenta corrigir a análise levando isso em conta e ainda conclui que o que pode ter “livrado” a capital do Amazonas da Covid-19 foi a imunidade de rebanho.

Como disse, esse resultado ainda precisa se contestado e confirmado por outros cientistas mas, com um grupo de pesquisadores tão grande e diverso, dificilmente essas conclusões mudarão. Com dois terços da população “curada” da Covid-19 —com sequelas longas— Manaus seria uma das cidades mais atacadas do mundo, até onde sabemos. Outras cidades à beira do rio Amazonas têm os maiores índices de prevalência de Covid-19 que o estudo Epicovid encontrou no Brasil, uma confirmação externa.

Ou seja, teoricamente Manaus controlou a Covid-19 na marra, às custas de muitas mortes. O que levanta a grande pergunta: até quando?

Se Manaus atingiu a imunidade coletiva, ela é a última cidade que deveria ter uma ressurgência de casos. Se voltar a ter casos com a reabertura que fez, é um sinal claro de que a imunidade de curados não é suficiente para conter o vírus e que teremos ondas contínuas de casos. A vacina teria ainda mais dificuldade.

Por isso, o mundo deveria olhar para lá com muita atenção. Infelizmente, pesquisadores da Fiocruz alertam para o fato de que os casos estão aumentando mais do que os números refletem. E pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas apontam para discrepâncias nos dados oficiais. Ter dúvidas sobre quantos casos a cidade tem é o pior cenário que poderíamos ter com uma questão tão importante.

Atila Iamarino
Doutor em ciências pela USP, fez pesquisa na Universidade de Yale. É divulgador científico no YouTube em seu canal pessoal e no Nerdologia

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